g.

Hoje eu queria dormir, mas o que precisava mesmo era uma garrafa de vinho, ou meia garrafa bastava, bebendo em copo de boteco porque não tenho taça e, sentado no sofá do meu lado, em silêncio, só olhando junto pra garrafa, alguém que conseguisse entender do que eu tô falando sem que eu precisasse explicar, porque tá difícil juntar palavras que deem conta desse vazio sensação de derrota absoluta infinita irremediável.

“É como se a nossa opressão tivesse sido forjada em lava eras atrás e agora fosse granito, e cada mulher está enterrada dentro da rocha. Mulheres tentam sobreviver dentro da rocha, enterradas nela. Mulheres dizem, eu gosto dessa rocha, seu peso não é demais para mim. Mulheres defendem a rocha dizendo que ela as protege da chuva e do vento e do fogo. Mulheres dizem: tudo o que eu sempre conheci é essa rocha, o que há sem ela?

Para algumas mulheres, estar enterrada dentro da rocha é Continuar lendo

tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose Continuar lendo

travessia

dia desses minha irmã me perguntou se eu tinha parado com o blog. parei, ué. era pra escrever sobre a viagem; a viagem estancou; não era pra parar? que não, não necessariamente, ela me disse, e então eu pensei que ensaiar uma ou outra linha aqui de vez em quando podia ser bom para a posteridade, né mesmo? é.

não que minhas viagens atuais sejam de grande interesse.

estou grávida.

quando fiz o xixi no potinho do Gravindex (não sei como é possível levar a sério um teste com esse nome), eu não acreditava muito que pudesse dar positivo, não. tanto que não estava nada apreensiva nem fiquei contando os minutos pra ver aparecer a tal fita rosa: fui m’embora plantar umas mudinhas, deixei pra lá, só fui ver nem sei quanto tempo depois. e não me surpreendi nem um pouco ao verificar o que me parecia um resultado claramente negativo. tava lá: uma linha rosa e ponto final.

quer dizer, uma linha rosa e uma e vírgula. porque assim, Continuar lendo