Impróprio para crianças

A mãe e a filha vivem juntas e sós; a mãe trabalha o dia inteiro e provavelmente passa a maior parte do tempo fazendo contas e projeções sobre o futuro da filha pra ver o quanto vai conseguir oferecer com tão pouco, porque quer dar à menina as melhores chances possíveis no melhor mundo possível mas banca tudo sozinha e sabe que não vai ser simples. Todas as decisões tomadas pela mãe têm a filha como motor. Inclusive, é claro, a mudança para casa nova, bem perto da escola maravilhosa e gratuita onde a filha será admitida se conseguir passar pelo difícil processo seletivo – tem vestibulinho por lá. Continuar lendo

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A dama

A imagem é brilhante. O lugar é um cortiço. O som é abafado. A gente é real.

Crianças envergonhadas cochicham, sorriem, brincam, escondem o rosto e olham de volta e de novo cochicham. Uma mulher esquálida e sem cor veste apenas uma calcinha velha. Ficam à mostra os peitos algo murchos, o ventre seco e a nudez da cara que estampa um sorriso talvez sem todos os dentes. O homem ao lado tenta apalpar a calcinha e pegar os peitos e ela deixa e se esquiva, deixa e se esquiva, montando um jogo que atinge pequenos ápices quando às vezes os sorrisos se engolem.

Outro plano. Outro casal, mas sempre o mesmo. Ele por cima. O dorso é grande e marrom. A bunda bem formada vai e volta enquanto algo se move por baixo e uma voz fina ri e geme as coisas de sempre – gostoso, vem, vai, ai, goza, gostoso. São talvez outras coisas. São as de sempre. Continuar lendo

g.

Hoje eu queria dormir, mas o que precisava mesmo era uma garrafa de vinho, ou meia garrafa bastava, bebendo em copo de boteco porque não tenho taça e, sentado no sofá do meu lado, em silêncio, só olhando junto pra garrafa, alguém que conseguisse entender do que eu tô falando sem que eu precisasse explicar, porque tá difícil juntar palavras que deem conta desse vazio sensação de derrota absoluta infinita irremediável.

“É como se a nossa opressão tivesse sido forjada em lava eras atrás e agora fosse granito, e cada mulher está enterrada dentro da rocha. Mulheres tentam sobreviver dentro da rocha, enterradas nela. Mulheres dizem, eu gosto dessa rocha, seu peso não é demais para mim. Mulheres defendem a rocha dizendo que ela as protege da chuva e do vento e do fogo. Mulheres dizem: tudo o que eu sempre conheci é essa rocha, o que há sem ela?

Para algumas mulheres, estar enterrada dentro da rocha é Continuar lendo

tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose Continuar lendo

travessia

dia desses minha irmã me perguntou se eu tinha parado com o blog. parei, ué. era pra escrever sobre a viagem; a viagem estancou; não era pra parar? que não, não necessariamente, ela me disse, e então eu pensei que ensaiar uma ou outra linha aqui de vez em quando podia ser bom para a posteridade, né mesmo? é.

não que minhas viagens atuais sejam de grande interesse.

estou grávida.

quando fiz o xixi no potinho do Gravindex (não sei como é possível levar a sério um teste com esse nome), eu não acreditava muito que pudesse dar positivo, não. tanto que não estava nada apreensiva nem fiquei contando os minutos pra ver aparecer a tal fita rosa: fui m’embora plantar umas mudinhas, deixei pra lá, só fui ver nem sei quanto tempo depois. e não me surpreendi nem um pouco ao verificar o que me parecia um resultado claramente negativo. tava lá: uma linha rosa e ponto final.

quer dizer, uma linha rosa e uma e vírgula. porque assim, Continuar lendo

antes de ir

nesse último mês teve de tudo um pouco: horta, macrobiótica, literatura, bichos, mais construção natural, encontro aguardado com irmã (e outros encontros inesperados também). na próxima semana tem Goiás.

mas, antes de ir embora daqui, queria registrar uma coisa já um pouco antiga. quando comecei a viver em Cholila, eu lia muito jornal. em parte, pra aprender o castelhano e, em parte, pra ficar um pouco por dentro dos temas locais. lembro uma notícia que me chocou muito na época: era sobre o número de estrangeiras que tinham sido estupradas recentemente no norte do país. a reportagem narrava dois casos que tinham ocorrido na mesma semana na província de Salta, se não me engano. em uma das histórias, o estuprador era um guia que a tal turista havia contratado para fazer uma trilha.

o mais impressionante da reportagem, porém, era a declaração do secretário de segurança sobre o caso: ele disse que não se sabia bem como as coisas tinham se passado e que talvez a culpa tivesse sido um pouco das estrangeiras, que se costumam se sentir seguras demais em outros países. a culpabilização da mulher estuprada é um discurso que nunca deveria estar presente, mas Continuar lendo

“nós os achamos feios”

em Chiloé, no Chile, chove quase todo os dias, o dia inteiro. pelo menos é o que todo mundo diz.

então, antes de sair do sol gostoso de Bariloche, preparo-me psicologicamente para chegar molhada e com frio, em meio a um dilúvio. tudo errado: ao entrar na ilha, sou surpreendida por um belo céu azul, quase sem nuvens. depois de caminhar um pouco pela agradável cidade de Castro, decido comprar frutinhas pra comer na praça, aproveitando o sol do fim da tarde. na quitanda, um senhor desconhecido me dá umas castanhas cozidas, que aceito com prazer.

quando estou sentada comendo, o mesmo homem se aproxima e pergunta se pode me fazer companhia. digo que sim e começamos a conversar. ele pergunta se ou alemã, ao que respondo que não: brasileira. ele diz que certamente devo ter ancestrais alemães, então explico mais ou menos minha genealogia, sem saber muito bem onde esse papo vai chegar. com uma ponta de orgulho, ele diz que sua esposa é alemã de segunda geração, de modo que seus filhos têm sangue alemão. hum. não entendo por que ele está me dizendo isso. Continuar lendo

ao sul do equador

ontem eu e Cata estávamos conversando e ela me falou sobre como determinados aspectos da cultura argentina eram divertidos e inusitados pra ela. por exemplo, me disse que um cara em buenos aires havia lhe explicado que em todo o país há uma coisa curiosíssima: são estabelecimentos parecidos com hotéis, mas que na verdade servem apenas para casais que querem fazer sexo, e…

– mas peraí, Cata, não tem esse tipo de coisa na suécia?
– um hotel só pra sexo? claro que não! tem no brasil?
– claro que tem, ué! pensei que tinha no mundo todo!
– e eu pensei que só tinha na argentina!

mas meu deus, e como fazem todos esses casais de Continuar lendo