Perdida

São três horas da tarde de um domingo ensolarado, mas ainda não vi muito bem o sol, além de nos momentos em que saí para estender as roupas que bati. Três máquinas hoje, quatro ontem. É outono, dias de sol forte precisam ser bem utilizados. E, felicidade!, temos máquinas de lavar.

Fui dormir ontem à uma da manhã e acordei relativamente tarde, às sete e meia. Levantei assustada, entrei esbaforida na cozinha e só terminei o que havia planejado para ela às duas da tarde, mas me dei conta de que ainda não tinha conseguido tomar café da manhã.

Almocei.

Estou finalmente sentada e trabalho. Continuar lendo

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Entre nós

Quando eu estava cadavérica, cheia de olheira, almoçando barra de chocolate, com a casa constantemente coberta por tufos de cabelo, fedendo a golfada, criando uma ruga por semana e andando o dia inteiro de cima pra baixo com uma criatura que gritava tão, mas tão alto que simplesmente deixá-la chorando não era uma opção viável, não só porque me partiria o coração, como também porque me partiria os tímpanos – nessa época me diziam: vai passar e você vai sentir saudade disso tudo, vai querer voltar no tempo, e eu achava que as pessoas estavam de sacanagem e que eu nunca teria saudade daquilo. Continuar lendo

encosta a sua cabecinha

o Houaiss tava dando sopa na minha frente, decidi abrir e ver as definições de “manha”. algumas delas: “habilidade de enganar, despistar, desorientar; astúcia, esperteza, malícia”, “meio oculto, processo particular e eficaz para alcançar um objetivo, conseguir um dado efeito; segredo”, “choro ou lamento de criança, obstinado e sem motivo”.

eu sou meio chorona. nunca choro porque tenho fome ou sede ou porque estou suja, mas é comum eu chorar de saudade, de solidão, de medo, porque quero colo. nos últimos tempos já me peguei chorando de sono algumas vezes, madrugada adentro. no meio desses choros, se alguém me distrai ou me consola, com frequência eu dou uma risadinha antes de cair no choro de novo. às vezes eu choro pelos motivos mais malucos (ano passado chorei horrores num dia em que, grávida e com a pressão meio baixa, entrei na fila preferencial e as pessoas ao redor começaram a gritar que eu era fura-fila. isso porque, Continuar lendo

tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose Continuar lendo

já pode pedir demissão do mundo?

minha mãe e minha irmã entram numa loja de bebês.

– boa tarde, em que cores vocês têm essa roupinha aqui?

– é menino ou menina?

– a gente não sabe.

– ah, então não tem.

– como assim?

– só tem pra menino ou pra menina.

– hum… a gente só quer saber quais são as cores disponíveis…

– mas não tem.

FIM

(hum, extrapolando: campanha que usou ferramenta pesquisa do google pra evidenciar sexismo