caso de amor

uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. esta que eu ando nela agora é por abandono. chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido em mim. eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. ela não tem indiferença pelo meu passado. eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. de minha parte eu achei ela bem acabadinha. sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. e quando vem um, ela o segura com carinho. eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. emas passavam sempre por ela esvoaçantes. bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: um coisa bem esquecida. pode ser. nem cachorro passa mais por nós. mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. eu falo: deixe deixe Continuar lendo

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mais de cem gramas de centeio

quando penso em romances policiais, a figura que me vem a mente não é a de nenhum Sherlock Holmes, mas, vejam só, a do Mário Quintana. posso visualizá-lo com muita clareza quando ele, com olhos bondosos de bicho de estimação, pele branquinha de tecido pregueado e voz de avô universal, diz que lê novelas policiais pra tapear a insônia e porque já passou da idade de ler coisas sérias.

mariomarple

imaginem que graciosa seria uma conversa entre ele e a Miss Marple, da Agatha Christie – um encontro entre dois dos velhinhos mais adoráveis do planeta! os dois comendo bolinhos doces de massa fofa, biscoitos amanteigados e pãezinhos de mel acompanhados por Continuar lendo

duende

“Es mejor callar si lo que se va a decir no es más bello que el silencio”, fue lo primero que le oí a mi duende en la primera vez que se me apareció.

 

a gente nao conhece nada de literatura hispanoamericana. bom, quando digo “a gente”, é claro que na verdade estou me referindo a mim mesma, mas tenho certeza de que há muitos como eu. quem a gente lê? garcia márquez, borges, galeano,  neruda e mais meia dúzia de gatos pingados. e a situação dos hermanos – pelo menos os argentinos – em relação ao Brasil não me parece ser muito diferente: o único autor “nosso” que eu realmente vejo muito por aí é o paulo coelho, e olhe lá.

 

Después insistió en que una de las razones de por qué se quedaba en esas soledades – además de haberse empapado como cualquiera de esos hombres llegados del sur del país – era porque el desierto constituía una gran lección de austeridad. Que si la gloria la daban los palacios y la fortuna los mercados, la virtud solo la entregaba el desierto.

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