Nós

Um homem posa para as fotografias ao lado daquilo que aparenta ser uma mulher, mas é apenas uma versão aperfeiçoada das bonecas infláveis de sempre. Sequer é um robô com inteligência artificial, algo provavelmente tão desnecessário quanto indesejável para o que o ele pretende. É um monte de silicone moldado para ser idêntico a uma figura feminina, só que com o olhar perdido. E com cabeça e vagina desmontáveis – dois detalhes bem relevantes. Continuar lendo

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g.

Hoje eu queria dormir, mas o que precisava mesmo era uma garrafa de vinho, ou meia garrafa bastava, bebendo em copo de boteco porque não tenho taça e, sentado no sofá do meu lado, em silêncio, só olhando junto pra garrafa, alguém que conseguisse entender do que eu tô falando sem que eu precisasse explicar, porque tá difícil juntar palavras que deem conta desse vazio sensação de derrota absoluta infinita irremediável.

“É como se a nossa opressão tivesse sido forjada em lava eras atrás e agora fosse granito, e cada mulher está enterrada dentro da rocha. Mulheres tentam sobreviver dentro da rocha, enterradas nela. Mulheres dizem, eu gosto dessa rocha, seu peso não é demais para mim. Mulheres defendem a rocha dizendo que ela as protege da chuva e do vento e do fogo. Mulheres dizem: tudo o que eu sempre conheci é essa rocha, o que há sem ela?

Para algumas mulheres, estar enterrada dentro da rocha é Continuar lendo

encosta a sua cabecinha

o Houaiss tava dando sopa na minha frente, decidi abrir e ver as definições de “manha”. algumas delas: “habilidade de enganar, despistar, desorientar; astúcia, esperteza, malícia”, “meio oculto, processo particular e eficaz para alcançar um objetivo, conseguir um dado efeito; segredo”, “choro ou lamento de criança, obstinado e sem motivo”.

eu sou meio chorona. nunca choro porque tenho fome ou sede ou porque estou suja, mas é comum eu chorar de saudade, de solidão, de medo, porque quero colo. nos últimos tempos já me peguei chorando de sono algumas vezes, madrugada adentro. no meio desses choros, se alguém me distrai ou me consola, com frequência eu dou uma risadinha antes de cair no choro de novo. às vezes eu choro pelos motivos mais malucos (ano passado chorei horrores num dia em que, grávida e com a pressão meio baixa, entrei na fila preferencial e as pessoas ao redor começaram a gritar que eu era fura-fila. isso porque, Continuar lendo

já pode pedir demissão do mundo?

minha mãe e minha irmã entram numa loja de bebês.

– boa tarde, em que cores vocês têm essa roupinha aqui?

– é menino ou menina?

– a gente não sabe.

– ah, então não tem.

– como assim?

– só tem pra menino ou pra menina.

– hum… a gente só quer saber quais são as cores disponíveis…

– mas não tem.

FIM

(hum, extrapolando: campanha que usou ferramenta pesquisa do google pra evidenciar sexismo

gênesis segundo maria das dor

minha avó se chama Maria das Dores. quase ninguém sabe disso, não. desde pequena ela é chamada de Lila, não sei bem o porquê, e aí até hoje todo mundo só a conhece como dona Lila, vó Lila, tia Lila. é engraçado, tem um pessoal cujo nome verdadeiro a gente praticamente morre sem saber qual é e sem se importar muito com isso. é o caso do irmão da vó Lila, o tio Zito. e também de uma tia do meu pai (ou tia-avó ou algo assim, porque tem certos parentes que ganham o título de tio a torto e a direito e a família é tão grande que eu nunca mais sei quem é irmão, primo ou tio de quem), a tia Calina. e, pra citar alguém mais contemporâneo, o Chopão, que foi meu namoradinho de colégio, mas aí já é outro papo.

o fato é que deve ser mesmo melhor ser Lila que ter Dores no nome, embora a questão da dor também não deixe de trazer em si alguma beleza. eu praticamente nunca me lembro do nome real da minha avó, a não ser quando conheço outra Maria das Dores. e aí simpatizo de imediato, porque o encontro me traz a lembrança da Lila.

mas a história que eu quero contar hoje não tem nada a ver com a minha vó, não. tem a ver justamente com uma outra Maria das Dores, que conheci numa outra viagem, Continuar lendo

quem é vivo…

desapareci.

não foi por mal, mas aos poucos começou a me parecer muito cacete demais escrever este blog, sobretudo quando ninguém – além da tríade mãe-pai-irmã – dava a menor pelota pra ele. mas me dei conta de que, afinal, é mesmo bacana manter este registro. e de que eu não tinha escrito nada desde que pisei de novo no Brasil. poxa, ficaram de fora logo as melhores partes da viagem!

é, meus caros, a Argentina pode até ser (e é) o maior barato, mas acho que a minha sina é positivamente verde e amarela feito a bananeira. falando nisso, todos aqueles meses comendo banana importada do Equador… não, não estava direito. foram meses também sem manga, sem água de coco, sem aipim (não vi nenhum bonito), sem inhame (as únicas pessoas que conheci que sabiam o que era inhame foram os macrobióticos), sem couve, sem barraquinhas vendendo tapioca e milho verde, sem isso e aquilo… dava não.

e, por mais que minhas saudades pareçam todas de gulodice, faltavam também a praia, o sambinha, o forró, faltava ver um povo mais colorido (e não estou falando de roupa: o caso é pele, mesmo), Continuar lendo

antes de ir

nesse último mês teve de tudo um pouco: horta, macrobiótica, literatura, bichos, mais construção natural, encontro aguardado com irmã (e outros encontros inesperados também). na próxima semana tem Goiás.

mas, antes de ir embora daqui, queria registrar uma coisa já um pouco antiga. quando comecei a viver em Cholila, eu lia muito jornal. em parte, pra aprender o castelhano e, em parte, pra ficar um pouco por dentro dos temas locais. lembro uma notícia que me chocou muito na época: era sobre o número de estrangeiras que tinham sido estupradas recentemente no norte do país. a reportagem narrava dois casos que tinham ocorrido na mesma semana na província de Salta, se não me engano. em uma das histórias, o estuprador era um guia que a tal turista havia contratado para fazer uma trilha.

o mais impressionante da reportagem, porém, era a declaração do secretário de segurança sobre o caso: ele disse que não se sabia bem como as coisas tinham se passado e que talvez a culpa tivesse sido um pouco das estrangeiras, que se costumam se sentir seguras demais em outros países. a culpabilização da mulher estuprada é um discurso que nunca deveria estar presente, mas Continuar lendo

duende

“Es mejor callar si lo que se va a decir no es más bello que el silencio”, fue lo primero que le oí a mi duende en la primera vez que se me apareció.

 

a gente nao conhece nada de literatura hispanoamericana. bom, quando digo “a gente”, é claro que na verdade estou me referindo a mim mesma, mas tenho certeza de que há muitos como eu. quem a gente lê? garcia márquez, borges, galeano,  neruda e mais meia dúzia de gatos pingados. e a situação dos hermanos – pelo menos os argentinos – em relação ao Brasil não me parece ser muito diferente: o único autor “nosso” que eu realmente vejo muito por aí é o paulo coelho, e olhe lá.

 

Después insistió en que una de las razones de por qué se quedaba en esas soledades – además de haberse empapado como cualquiera de esos hombres llegados del sur del país – era porque el desierto constituía una gran lección de austeridad. Que si la gloria la daban los palacios y la fortuna los mercados, la virtud solo la entregaba el desierto.

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“nós os achamos feios”

em Chiloé, no Chile, chove quase todo os dias, o dia inteiro. pelo menos é o que todo mundo diz.

então, antes de sair do sol gostoso de Bariloche, preparo-me psicologicamente para chegar molhada e com frio, em meio a um dilúvio. tudo errado: ao entrar na ilha, sou surpreendida por um belo céu azul, quase sem nuvens. depois de caminhar um pouco pela agradável cidade de Castro, decido comprar frutinhas pra comer na praça, aproveitando o sol do fim da tarde. na quitanda, um senhor desconhecido me dá umas castanhas cozidas, que aceito com prazer.

quando estou sentada comendo, o mesmo homem se aproxima e pergunta se pode me fazer companhia. digo que sim e começamos a conversar. ele pergunta se ou alemã, ao que respondo que não: brasileira. ele diz que certamente devo ter ancestrais alemães, então explico mais ou menos minha genealogia, sem saber muito bem onde esse papo vai chegar. com uma ponta de orgulho, ele diz que sua esposa é alemã de segunda geração, de modo que seus filhos têm sangue alemão. hum. não entendo por que ele está me dizendo isso. Continuar lendo

ao sul do equador

ontem eu e Cata estávamos conversando e ela me falou sobre como determinados aspectos da cultura argentina eram divertidos e inusitados pra ela. por exemplo, me disse que um cara em buenos aires havia lhe explicado que em todo o país há uma coisa curiosíssima: são estabelecimentos parecidos com hotéis, mas que na verdade servem apenas para casais que querem fazer sexo, e…

– mas peraí, Cata, não tem esse tipo de coisa na suécia?
– um hotel só pra sexo? claro que não! tem no brasil?
– claro que tem, ué! pensei que tinha no mundo todo!
– e eu pensei que só tinha na argentina!

mas meu deus, e como fazem todos esses casais de Continuar lendo