mais de cem gramas de centeio

quando penso em romances policiais, a figura que me vem a mente não é a de nenhum Sherlock Holmes, mas, vejam só, a do Mário Quintana. posso visualizá-lo com muita clareza quando ele, com olhos bondosos de bicho de estimação, pele branquinha de tecido pregueado e voz de avô universal, diz que lê novelas policiais pra tapear a insônia e porque já passou da idade de ler coisas sérias.

mariomarple

imaginem que graciosa seria uma conversa entre ele e a Miss Marple, da Agatha Christie – um encontro entre dois dos velhinhos mais adoráveis do planeta! os dois comendo bolinhos doces de massa fofa, biscoitos amanteigados e pãezinhos de mel acompanhados por Continuar lendo

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“o pão da Beth” ou “como fui recebida em Goiás”

“você é a Raquel, então? eu sei, a menina do Rio… já me falaram de você”. no princípio, confesso que fiquei um pouco surpresa com a fala do rapaz, mas, pensando bem, até que era mais ou menos natural.

eu havia chegado a Pirenópolis apenas dois dias antes e já acenava para alguns conhecidos na rua. em realidade, num lugar como Piri, conseguir isso não é tarefa das mais difíceis. basta ir à feira, tomar um café no armazém e dar uma volta pelo centro e já está: fatalmente, as carinhas começam a se repetir e você se sente um pouco local.

no entanto, uma coisa é reconhecer as carinhas; outra, bem distinta, é de fato falar com elas. no meu caso, considerando-se a patente timidez que me é constitutiva, dir-se-ia que a simples distribuição de tchauzinhos por minha parte era quase um milagre – apenas alcançado, creio eu, graças à enorme popularidade da Beth dos Pães, que vivia e trabalhava no lugar onde acampei durante minhas primeiras noites na cidade.

como eu disse, é fácil ser popular em Piri. só que eu ainda não sabia disso quando cheguei e, então, a Beth me Continuar lendo

quem é vivo…

desapareci.

não foi por mal, mas aos poucos começou a me parecer muito cacete demais escrever este blog, sobretudo quando ninguém – além da tríade mãe-pai-irmã – dava a menor pelota pra ele. mas me dei conta de que, afinal, é mesmo bacana manter este registro. e de que eu não tinha escrito nada desde que pisei de novo no Brasil. poxa, ficaram de fora logo as melhores partes da viagem!

é, meus caros, a Argentina pode até ser (e é) o maior barato, mas acho que a minha sina é positivamente verde e amarela feito a bananeira. falando nisso, todos aqueles meses comendo banana importada do Equador… não, não estava direito. foram meses também sem manga, sem água de coco, sem aipim (não vi nenhum bonito), sem inhame (as únicas pessoas que conheci que sabiam o que era inhame foram os macrobióticos), sem couve, sem barraquinhas vendendo tapioca e milho verde, sem isso e aquilo… dava não.

e, por mais que minhas saudades pareçam todas de gulodice, faltavam também a praia, o sambinha, o forró, faltava ver um povo mais colorido (e não estou falando de roupa: o caso é pele, mesmo), Continuar lendo