Quarto vazio

No quarto branco os desenhos colados são rabiscos que esperam a chegada de bonecos, árvores e casas rudimentares.

No quarto limpo os brinquedos estão – sempre estão – organizados na pequena estante, poucos, suficientes.

No quarto amplo a cama ocupa o lugar que nunca foi de um berço, porque crianças crescem rápido e não vale a pena mudar os móveis a cada par de anos. Continuar lendo

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Perdida

São três horas da tarde de um domingo ensolarado, mas ainda não vi muito bem o sol, além de nos momentos em que saí para estender as roupas que bati. Três máquinas hoje, quatro ontem. É outono, dias de sol forte precisam ser bem utilizados. E, felicidade!, temos máquinas de lavar.

Fui dormir ontem à uma da manhã e acordei relativamente tarde, às sete e meia. Levantei assustada, entrei esbaforida na cozinha e só terminei o que havia planejado para ela às duas da tarde, mas me dei conta de que ainda não tinha conseguido tomar café da manhã.

Almocei.

Estou finalmente sentada e trabalho. Continuar lendo

O carteiro sem motivos

Não sou nostálgico. Não acho que minhas brincadeiras eram mais puras, que antes se tinha mais respeito, que as melodias eram mais lindas, que o jornalismo era de verdade, que as pessoas realmente conversavam, que aquilo sim era escola, que não havia essa roubalheira, que hoje é a barbárie.

Acho que tudo está ruim e sempre esteve. Quem fala essas besteiras nunca leu livro de guerra nem viu filme de gladiador. O que mais assusta na história do mundo não é que as coisas estejam piorando, mas que estejam iguais. Um monte de guerras, meia dúzia de grandes vitórias sociais e no fim saímos de uma merda pra outra, diferente mas igual, reformada mas nunca revolucionária.

Então ninguém vai me ouvir dizer que a internet desromantizou a comunicação. Sejamos realistas: o corretor dos e-mails é magnífico, não ter que comprar selo é uma maravilha, não passar semanas de agonia enquanto Continuar lendo

A dama

A imagem é brilhante. O lugar é um cortiço. O som é abafado. A gente é real.

Crianças envergonhadas cochicham, sorriem, brincam, escondem o rosto e olham de volta e de novo cochicham. Uma mulher esquálida e sem cor veste apenas uma calcinha velha. Ficam à mostra os peitos algo murchos, o ventre seco e a nudez da cara que estampa um sorriso talvez sem todos os dentes. O homem ao lado tenta apalpar a calcinha e pegar os peitos e ela deixa e se esquiva, deixa e se esquiva, montando um jogo que atinge pequenos ápices quando às vezes os sorrisos se engolem.

Outro plano. Outro casal, mas sempre o mesmo. Ele por cima. O dorso é grande e marrom. A bunda bem formada vai e volta enquanto algo se move por baixo e uma voz fina ri e geme as coisas de sempre – gostoso, vem, vai, ai, goza, gostoso. São talvez outras coisas. São as de sempre. Continuar lendo

Bom dia

Bom dia, bom dia, bom dia. Todo dia.

Estava sempre cansado, sempre tinha trabalhado à noite e sempre de manhã era uma tortura ter que colocar aquela boina e aqueles suspensórios ridículos e dar bom dia pras madames.

Os outros diziam que a roupa ridícula ajudava a criar a ambientação do hotel. O chefe é que dizia, os outros só repetiam. Ele não podia acreditar que os outros realmente achassem aquilo bacana. Ele não reclamava, mas pelo menos não fingia gostar. O prédio era antigo, uns lustres de milhões de anos, um tapete vermelho na entrada, pé-direito altíssimo, pórticos, mármores, grandes corredores, quartos com penteadeira, banheiros muito brancos reformados com ladrilhos novos que imitavam velhos. As louças eram originais. Era bonito.

Era possível morar ali. Em geral pessoas sozinhas Continuar lendo

Staden e eu

No dia em que Staden seria comido, o chefe Cunhãbebe mandou sua esposa, para ela aprovar ou não a carne do pobre alemão.

Pra quê! Foi só ela olhar para Staden que ficou perdidamente apaixonada. E pela cara de Staden, ele sentia o mesmo.

Cunhãbebeza, a esposa do Cunhãnbebe, chegou mais perto do apaixonado alemão e disse:

– Fica calmo, que amanhã eu te tiro daqui.

O alemão ia agradecer, mas não teve tempo, ela disse isso e foi logo embora.

Foi até sua oca e disse para o marido:

– É, a carne parece ser boa, mas não vai dar para comer hoje não. Agente come depois de amanhã. Continuar lendo

Anicca

Ela não existe.

É um espaço vazio com pequeniníssimas partículas que dançam, e as pequeniníssimas partículas são pequeniníssimos espaços vazios em que dançam partes ainda menores, e estes são espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam vazios até onde não se sabe e até onde talvez nunca se saiba.

Ela não existe.

Se ao menos suas partes não-vazias pudessem parar de dançar por um segundo, se ao menos uma enorme coincidência fizesse com que elas passassem exatamente pelos espaços vazios do corpo à sua frente, o corpo que também não existe, se ao menos fosse possível. Continuar lendo

O menu

Eu tive um namorado que tentava me convencer a beber meu xixi. Juro! Ele era um tipo meio esotérico (naquela época, estava um pouco na moda ser esotérico), dizia que era tônico e evitava doenças, que o povo de sei lá qual deserto e de sei lá quando teria sido dizimado se não tivesse bebido xixi. Meu querido, em situações extremas as pessoas arrancam um pedaço do próprio braço e comem, não é por isso que todo mundo tem que começar a comer coxinha de gente.

Você viu que já teve isso, né? Não faz nem muito tempo, vi na TV quando prenderam esse casal na Bahia (ou era só uma mulher, não lembro, também não lembro direito se foi na Bahia) que tava vendendo coxinha de gente. E sabe o que era pior? As pessoas comiam, não percebiam, não passavam mal…!

Tá com cara de nojo, é? Foi sério o negócio. Mas olha, na verdade eu tô te contando isso pra ver se consigo chegar em outra coisa. Continuar lendo

O marido

Isso aqui não é pra ser exatamente interessante, uma versão menos divertida e inovadora que o Brás Cubas, uma tentativa de fazer literatura, desenterrar as palavras certas. Descobrir.  Desencavernar. Libertar. Engraçado isso, diz que o Michelangelo só tirava a escultura que já estava dentro da pedra, e eu sempre achei que na escrita era por aí também, uma rocha envolvendo as letras. Continuar lendo