meio fera meio ferida

ele às vezes parecia uma coruja – sobretudo no início, quando, de susto ou de medo, tinha os olhos amarelos tão arregalados que quase se esbugalhavam –, às vezes uma galinha choca – sobretudo quando se deitava na palha com a cabeça meio que enfiada pelos ombros, escondendo o pescoço.

no dia em que chegou, estava mais para coruja. só a cara, porque o resto do corpo parecia mais o de não sei o quê desajeitado, uma das patas não funcionava direito e ele então perdia o equilíbrio, só ficava parado com o rabo lá pra cima e a cabeça quase no chão, coitado, parecia que plantando bananeira, mas não tinha a menor graça, dava um pouco de pena vê-lo assim tão completamente sem jeito. que talvez fosse filhote, que talvez tivesse sido criado em cativeiro, que talvez já tivessem judiado muito dele, era o que os homens que o trouxeram diziam.

lembro-me da primeira vez que o vi tentando voar: em menos de dez segundos, bateu numa árvore que estava no caminho e ficou preso nos galhos, daquele jeitinho dele, cabeça pra baixo, um pouco patético. na segunda vez, bateu de cara numa grade de pouco Continuar lendo

aldeia velha, 28 de dezembro de 2012

eu gosto de cartas. quando era pequena, gostava de abrir a caixa do correio e ver aquela papelada dentro – inclusive um ou outro envelope com pinta de corrente, que minha mãe não queria abrir porque, se a gente lesse, ia ficar assustada com o conteúdo e ia acabar tendo que passar adiante sob a pena de morrermos no décimo dia –, gostava quando era natal e tínhamos um porta-cartas de tapeçaria feito especialmente por ela para a época, gostava quando chegavam os cartões com os mesmos dizeres de sempre – felicidade, prosperidade, adeus ano velho, era meio bobo, mas dava a sensação de que a gente era lembrado.

gostava de ter uma prima lá longe que me escrevia de vez em quando, eu escrevia de volta e guardo as cartinhas até hoje. gostei quando, mais tarde, mas ainda antes da internet, encontrei não me lembro como duas meninas com quem eu me correspondia – uma no Canadá, outra nos Estados Unidos, essa aí me parecia aqueles estereótipos de menina americana de filme, um dia até me mandou de presente uma bandeirola do país. foram pouquíssimas Continuar lendo