Bom dia

Bom dia, bom dia, bom dia. Todo dia.

Estava sempre cansado, sempre tinha trabalhado à noite e sempre de manhã era uma tortura ter que colocar aquela boina e aqueles suspensórios ridículos e dar bom dia pras madames.

Os outros diziam que a roupa ridícula ajudava a criar a ambientação do hotel. O chefe é que dizia, os outros só repetiam. Ele não podia acreditar que os outros realmente achassem aquilo bacana. Ele não reclamava, mas pelo menos não fingia gostar. O prédio era antigo, uns lustres de milhões de anos, um tapete vermelho na entrada, pé-direito altíssimo, pórticos, mármores, grandes corredores, quartos com penteadeira, banheiros muito brancos reformados com ladrilhos novos que imitavam velhos. As louças eram originais. Era bonito.

Era possível morar ali. Em geral pessoas sozinhas Continuar lendo

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Staden e eu

No dia em que Staden seria comido, o chefe Cunhãbebe mandou sua esposa, para ela aprovar ou não a carne do pobre alemão.

Pra quê! Foi só ela olhar para Staden que ficou perdidamente apaixonada. E pela cara de Staden, ele sentia o mesmo.

Cunhãbebeza, a esposa do Cunhãnbebe, chegou mais perto do apaixonado alemão e disse:

– Fica calmo, que amanhã eu te tiro daqui.

O alemão ia agradecer, mas não teve tempo, ela disse isso e foi logo embora.

Foi até sua oca e disse para o marido:

– É, a carne parece ser boa, mas não vai dar para comer hoje não. Agente come depois de amanhã. Continuar lendo

Anicca

Ela não existe.

É um espaço vazio com pequeniníssimas partículas que dançam, e as pequeniníssimas partículas são pequeniníssimos espaços vazios em que dançam partes ainda menores, e estes são espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam vazios até onde não se sabe e até onde talvez nunca se saiba.

Ela não existe.

Se ao menos suas partes não-vazias pudessem parar de dançar por um segundo, se ao menos uma enorme coincidência fizesse com que elas passassem exatamente pelos espaços vazios do corpo à sua frente, o corpo que também não existe, se ao menos fosse possível. Continuar lendo

O menu

Eu tive um namorado que tentava me convencer a beber meu xixi. Juro! Ele era um tipo meio esotérico (naquela época, estava um pouco na moda ser esotérico), dizia que era tônico e evitava doenças, que o povo de sei lá qual deserto e de sei lá quando teria sido dizimado se não tivesse bebido xixi. Meu querido, em situações extremas as pessoas arrancam um pedaço do próprio braço e comem, não é por isso que todo mundo tem que começar a comer coxinha de gente.

Você viu que já teve isso, né? Não faz nem muito tempo, vi na TV quando prenderam esse casal na Bahia (ou era só uma mulher, não lembro, também não lembro direito se foi na Bahia) que tava vendendo coxinha de gente. E sabe o que era pior? As pessoas comiam, não percebiam, não passavam mal…!

Tá com cara de nojo, é? Foi sério o negócio. Mas olha, na verdade eu tô te contando isso pra ver se consigo chegar em outra coisa. Continuar lendo

O marido

Isso aqui não é pra ser exatamente interessante, uma versão menos divertida e inovadora que o Brás Cubas, uma tentativa de fazer literatura, desenterrar as palavras certas. Descobrir.  Desencavernar. Libertar. Engraçado isso, diz que o Michelangelo só tirava a escultura que já estava dentro da pedra, e eu sempre achei que na escrita era por aí também, uma rocha envolvendo as letras. Continuar lendo

g.

Hoje eu queria dormir, mas o que precisava mesmo era uma garrafa de vinho, ou meia garrafa bastava, bebendo em copo de boteco porque não tenho taça e, sentado no sofá do meu lado, em silêncio, só olhando junto pra garrafa, alguém que conseguisse entender do que eu tô falando sem que eu precisasse explicar, porque tá difícil juntar palavras que deem conta desse vazio sensação de derrota absoluta infinita irremediável.

“É como se a nossa opressão tivesse sido forjada em lava eras atrás e agora fosse granito, e cada mulher está enterrada dentro da rocha. Mulheres tentam sobreviver dentro da rocha, enterradas nela. Mulheres dizem, eu gosto dessa rocha, seu peso não é demais para mim. Mulheres defendem a rocha dizendo que ela as protege da chuva e do vento e do fogo. Mulheres dizem: tudo o que eu sempre conheci é essa rocha, o que há sem ela?

Para algumas mulheres, estar enterrada dentro da rocha é Continuar lendo

seis

Eu sempre pensei que, com o tempo, a dor fosse minguando. Não vai. Segue cheia. Muda um pouco, é verdade. Tanto que agora eu consigo escrever alguma coisa sobre ela.

Também segue cheia a ilusão da presença.

No início do ano eu pesquei no facebook um vídeo com algumas jogadas magistrais do Maradona. “Putz, preciso mandar pro meu pai”. A ideia me veio à cabeça mais rápido que o raciocínio, e o vazio que veio no próximo milissegundo foi um abismo.

Outro dia passei de ônibus com Clarice pelo Campo de Santana. Era dia de São Jorge. Ela quis descer. Entramos na igreja lotada e, enquanto nos esprememos seguindo o fluxo que levava ao altar, eu tentava explicar a ela minimamente o contexto. Finalmente paramos diante da enorme imagem do santo (Clarice gostou do cavalo) e minha ação automática foi a de repetir o que, havia anos, eu pedia mecanicamente Continuar lendo

encosta a sua cabecinha

o Houaiss tava dando sopa na minha frente, decidi abrir e ver as definições de “manha”. algumas delas: “habilidade de enganar, despistar, desorientar; astúcia, esperteza, malícia”, “meio oculto, processo particular e eficaz para alcançar um objetivo, conseguir um dado efeito; segredo”, “choro ou lamento de criança, obstinado e sem motivo”.

eu sou meio chorona. nunca choro porque tenho fome ou sede ou porque estou suja, mas é comum eu chorar de saudade, de solidão, de medo, porque quero colo. nos últimos tempos já me peguei chorando de sono algumas vezes, madrugada adentro. no meio desses choros, se alguém me distrai ou me consola, com frequência eu dou uma risadinha antes de cair no choro de novo. às vezes eu choro pelos motivos mais malucos (ano passado chorei horrores num dia em que, grávida e com a pressão meio baixa, entrei na fila preferencial e as pessoas ao redor começaram a gritar que eu era fura-fila. isso porque, Continuar lendo

tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose Continuar lendo

já pode pedir demissão do mundo?

minha mãe e minha irmã entram numa loja de bebês.

– boa tarde, em que cores vocês têm essa roupinha aqui?

– é menino ou menina?

– a gente não sabe.

– ah, então não tem.

– como assim?

– só tem pra menino ou pra menina.

– hum… a gente só quer saber quais são as cores disponíveis…

– mas não tem.

FIM

(hum, extrapolando: campanha que usou ferramenta pesquisa do google pra evidenciar sexismo

travessia

dia desses minha irmã me perguntou se eu tinha parado com o blog. parei, ué. era pra escrever sobre a viagem; a viagem estancou; não era pra parar? que não, não necessariamente, ela me disse, e então eu pensei que ensaiar uma ou outra linha aqui de vez em quando podia ser bom para a posteridade, né mesmo? é.

não que minhas viagens atuais sejam de grande interesse.

estou grávida.

quando fiz o xixi no potinho do Gravindex (não sei como é possível levar a sério um teste com esse nome), eu não acreditava muito que pudesse dar positivo, não. tanto que não estava nada apreensiva nem fiquei contando os minutos pra ver aparecer a tal fita rosa: fui m’embora plantar umas mudinhas, deixei pra lá, só fui ver nem sei quanto tempo depois. e não me surpreendi nem um pouco ao verificar o que me parecia um resultado claramente negativo. tava lá: uma linha rosa e ponto final.

quer dizer, uma linha rosa e uma e vírgula. porque assim, Continuar lendo

caso de amor

uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. esta que eu ando nela agora é por abandono. chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido em mim. eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. ela não tem indiferença pelo meu passado. eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. de minha parte eu achei ela bem acabadinha. sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. e quando vem um, ela o segura com carinho. eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. emas passavam sempre por ela esvoaçantes. bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: um coisa bem esquecida. pode ser. nem cachorro passa mais por nós. mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. eu falo: deixe deixe Continuar lendo

meio fera meio ferida

ele às vezes parecia uma coruja – sobretudo no início, quando, de susto ou de medo, tinha os olhos amarelos tão arregalados que quase se esbugalhavam –, às vezes uma galinha choca – sobretudo quando se deitava na palha com a cabeça meio que enfiada pelos ombros, escondendo o pescoço.

no dia em que chegou, estava mais para coruja. só a cara, porque o resto do corpo parecia mais o de não sei o quê desajeitado, uma das patas não funcionava direito e ele então perdia o equilíbrio, só ficava parado com o rabo lá pra cima e a cabeça quase no chão, coitado, parecia que plantando bananeira, mas não tinha a menor graça, dava um pouco de pena vê-lo assim tão completamente sem jeito. que talvez fosse filhote, que talvez tivesse sido criado em cativeiro, que talvez já tivessem judiado muito dele, era o que os homens que o trouxeram diziam.

lembro-me da primeira vez que o vi tentando voar: em menos de dez segundos, bateu numa árvore que estava no caminho e ficou preso nos galhos, daquele jeitinho dele, cabeça pra baixo, um pouco patético. na segunda vez, bateu de cara numa grade de pouco Continuar lendo

aldeia velha, 28 de dezembro de 2012

eu gosto de cartas. quando era pequena, gostava de abrir a caixa do correio e ver aquela papelada dentro – inclusive um ou outro envelope com pinta de corrente, que minha mãe não queria abrir porque, se a gente lesse, ia ficar assustada com o conteúdo e ia acabar tendo que passar adiante sob a pena de morrermos no décimo dia –, gostava quando era natal e tínhamos um porta-cartas de tapeçaria feito especialmente por ela para a época, gostava quando chegavam os cartões com os mesmos dizeres de sempre – felicidade, prosperidade, adeus ano velho, era meio bobo, mas dava a sensação de que a gente era lembrado.

gostava de ter uma prima lá longe que me escrevia de vez em quando, eu escrevia de volta e guardo as cartinhas até hoje. gostei quando, mais tarde, mas ainda antes da internet, encontrei não me lembro como duas meninas com quem eu me correspondia – uma no Canadá, outra nos Estados Unidos, essa aí me parecia aqueles estereótipos de menina americana de filme, um dia até me mandou de presente uma bandeirola do país. foram pouquíssimas Continuar lendo