seis

Eu sempre pensei que, com o tempo, a dor fosse minguando. Não vai. Segue cheia. Muda um pouco, é verdade. Tanto que agora eu consigo escrever alguma coisa sobre ela.

Também segue cheia a ilusão da presença.

No início do ano eu pesquei no facebook um vídeo com algumas jogadas magistrais do Maradona. “Putz, preciso mandar pro meu pai”. A ideia me veio à cabeça mais rápido que o raciocínio, e o vazio que veio no próximo milissegundo foi um abismo.

Outro dia passei de ônibus com Clarice pelo Campo de Santana. Era dia de São Jorge. Ela quis descer. Entramos na igreja lotada e, enquanto nos esprememos seguindo o fluxo que levava ao altar, eu tentava explicar a ela minimamente o contexto. Finalmente paramos diante da enorme imagem do santo (Clarice gostou do cavalo) e minha ação automática foi a de repetir o que, havia anos, eu pedia mecanicamente Continuar lendo

Anúncios

encosta a sua cabecinha

o Houaiss tava dando sopa na minha frente, decidi abrir e ver as definições de “manha”. algumas delas: “habilidade de enganar, despistar, desorientar; astúcia, esperteza, malícia”, “meio oculto, processo particular e eficaz para alcançar um objetivo, conseguir um dado efeito; segredo”, “choro ou lamento de criança, obstinado e sem motivo”.

eu sou meio chorona. nunca choro porque tenho fome ou sede ou porque estou suja, mas é comum eu chorar de saudade, de solidão, de medo, porque quero colo. nos últimos tempos já me peguei chorando de sono algumas vezes, madrugada adentro. no meio desses choros, se alguém me distrai ou me consola, com frequência eu dou uma risadinha antes de cair no choro de novo. às vezes eu choro pelos motivos mais malucos (ano passado chorei horrores num dia em que, grávida e com a pressão meio baixa, entrei na fila preferencial e as pessoas ao redor começaram a gritar que eu era fura-fila. isso porque, Continuar lendo

tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose Continuar lendo

já pode pedir demissão do mundo?

minha mãe e minha irmã entram numa loja de bebês.

– boa tarde, em que cores vocês têm essa roupinha aqui?

– é menino ou menina?

– a gente não sabe.

– ah, então não tem.

– como assim?

– só tem pra menino ou pra menina.

– hum… a gente só quer saber quais são as cores disponíveis…

– mas não tem.

FIM

(hum, extrapolando: campanha que usou ferramenta pesquisa do google pra evidenciar sexismo

travessia

dia desses minha irmã me perguntou se eu tinha parado com o blog. parei, ué. era pra escrever sobre a viagem; a viagem estancou; não era pra parar? que não, não necessariamente, ela me disse, e então eu pensei que ensaiar uma ou outra linha aqui de vez em quando podia ser bom para a posteridade, né mesmo? é.

não que minhas viagens atuais sejam de grande interesse.

estou grávida.

quando fiz o xixi no potinho do Gravindex (não sei como é possível levar a sério um teste com esse nome), eu não acreditava muito que pudesse dar positivo, não. tanto que não estava nada apreensiva nem fiquei contando os minutos pra ver aparecer a tal fita rosa: fui m’embora plantar umas mudinhas, deixei pra lá, só fui ver nem sei quanto tempo depois. e não me surpreendi nem um pouco ao verificar o que me parecia um resultado claramente negativo. tava lá: uma linha rosa e ponto final.

quer dizer, uma linha rosa e uma e vírgula. porque assim, Continuar lendo

caso de amor

uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. esta que eu ando nela agora é por abandono. chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido em mim. eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. ela não tem indiferença pelo meu passado. eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. de minha parte eu achei ela bem acabadinha. sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. e quando vem um, ela o segura com carinho. eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. emas passavam sempre por ela esvoaçantes. bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: um coisa bem esquecida. pode ser. nem cachorro passa mais por nós. mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. eu falo: deixe deixe Continuar lendo

meio fera meio ferida

ele às vezes parecia uma coruja – sobretudo no início, quando, de susto ou de medo, tinha os olhos amarelos tão arregalados que quase se esbugalhavam –, às vezes uma galinha choca – sobretudo quando se deitava na palha com a cabeça meio que enfiada pelos ombros, escondendo o pescoço.

no dia em que chegou, estava mais para coruja. só a cara, porque o resto do corpo parecia mais o de não sei o quê desajeitado, uma das patas não funcionava direito e ele então perdia o equilíbrio, só ficava parado com o rabo lá pra cima e a cabeça quase no chão, coitado, parecia que plantando bananeira, mas não tinha a menor graça, dava um pouco de pena vê-lo assim tão completamente sem jeito. que talvez fosse filhote, que talvez tivesse sido criado em cativeiro, que talvez já tivessem judiado muito dele, era o que os homens que o trouxeram diziam.

lembro-me da primeira vez que o vi tentando voar: em menos de dez segundos, bateu numa árvore que estava no caminho e ficou preso nos galhos, daquele jeitinho dele, cabeça pra baixo, um pouco patético. na segunda vez, bateu de cara numa grade de pouco Continuar lendo

aldeia velha, 28 de dezembro de 2012

eu gosto de cartas. quando era pequena, gostava de abrir a caixa do correio e ver aquela papelada dentro – inclusive um ou outro envelope com pinta de corrente, que minha mãe não queria abrir porque, se a gente lesse, ia ficar assustada com o conteúdo e ia acabar tendo que passar adiante sob a pena de morrermos no décimo dia –, gostava quando era natal e tínhamos um porta-cartas de tapeçaria feito especialmente por ela para a época, gostava quando chegavam os cartões com os mesmos dizeres de sempre – felicidade, prosperidade, adeus ano velho, era meio bobo, mas dava a sensação de que a gente era lembrado.

gostava de ter uma prima lá longe que me escrevia de vez em quando, eu escrevia de volta e guardo as cartinhas até hoje. gostei quando, mais tarde, mas ainda antes da internet, encontrei não me lembro como duas meninas com quem eu me correspondia – uma no Canadá, outra nos Estados Unidos, essa aí me parecia aqueles estereótipos de menina americana de filme, um dia até me mandou de presente uma bandeirola do país. foram pouquíssimas Continuar lendo

visita guiada

dizem os entendidos que viajar é importantíssimo para a formação do espírito…

Petrópolis é aquele lugar em numa bela manhã você sai pela sua portaria e, ao mesmo tempo, uma grande amiga de infância e de sempre está passando na calçada, por puro acaso (nada a ver com o encontro que as duas já têm combinado para dois dias depois). você começa a conversar animada e, antes que se passem cinco minutos, olha para a esquerda e vê que se aproxima uma outra grande amiga, com um envelope na mão: é que ela estava justamente indo deixar uma cartinha na sua caixa de correios, como nos velhos tempos.

aí você conversa um pouco mais, reforça o agendamento do encontro e sai andando debaixo daquele céu muito azul e envolta por aquele ar gostoso, então passa na calçada por um senhor, aquele com quem nunca conversou mas de quem tirou um retrato certa ocasião, numa folia de reis anos atrás – o rosto muito preto, os olhos meio úmidos – e que desde então vê bastante na rua, e repara e pensa na foto.

não são necessários muitos mais passos para que Continuar lendo

gênesis segundo maria das dor

minha avó se chama Maria das Dores. quase ninguém sabe disso, não. desde pequena ela é chamada de Lila, não sei bem o porquê, e aí até hoje todo mundo só a conhece como dona Lila, vó Lila, tia Lila. é engraçado, tem um pessoal cujo nome verdadeiro a gente praticamente morre sem saber qual é e sem se importar muito com isso. é o caso do irmão da vó Lila, o tio Zito. e também de uma tia do meu pai (ou tia-avó ou algo assim, porque tem certos parentes que ganham o título de tio a torto e a direito e a família é tão grande que eu nunca mais sei quem é irmão, primo ou tio de quem), a tia Calina. e, pra citar alguém mais contemporâneo, o Chopão, que foi meu namoradinho de colégio, mas aí já é outro papo.

o fato é que deve ser mesmo melhor ser Lila que ter Dores no nome, embora a questão da dor também não deixe de trazer em si alguma beleza. eu praticamente nunca me lembro do nome real da minha avó, a não ser quando conheço outra Maria das Dores. e aí simpatizo de imediato, porque o encontro me traz a lembrança da Lila.

mas a história que eu quero contar hoje não tem nada a ver com a minha vó, não. tem a ver justamente com uma outra Maria das Dores, que conheci numa outra viagem, Continuar lendo

mais de cem gramas de centeio

quando penso em romances policiais, a figura que me vem a mente não é a de nenhum Sherlock Holmes, mas, vejam só, a do Mário Quintana. posso visualizá-lo com muita clareza quando ele, com olhos bondosos de bicho de estimação, pele branquinha de tecido pregueado e voz de avô universal, diz que lê novelas policiais pra tapear a insônia e porque já passou da idade de ler coisas sérias.

mariomarple

imaginem que graciosa seria uma conversa entre ele e a Miss Marple, da Agatha Christie – um encontro entre dois dos velhinhos mais adoráveis do planeta! os dois comendo bolinhos doces de massa fofa, biscoitos amanteigados e pãezinhos de mel acompanhados por Continuar lendo

só umas palavrinhas sobre o cerrado

há, entre mim e ele, uma relação que eu ainda não consegui compreender adequadamente. nasci na mata atlântica – ou, bem, no que resta dela – e não viajei muito pelo cerrado, não. apesar disso, sempre me senti muito familiar a esse sistema, como se fôssemos algo como primos distantes ou namorados virtuais.

de onde vem esta simpatia, que chega a criar laços? Continuar lendo

piri, mimi, merci

o pancadão não é muito a minha praia, mas eu sou do Rio. isso significa que sei muito bem que batida é essa que na balada é sensação, conheço a diferença entre o charme e o funk, às vezes subo no palco ao som do tamborzão e compreendo perfeitamente que um lance é apenas um lance. sei também que tem gente que sai por aí não pra dar, mas pra distribuir, tanto faz com red label ou ice. daquele jeito, né? solteira sim, sozinha nunca! se tem amor a Jesus Cristo… demorô!

o que eu jamais imaginei é que haveria nesse mundo um mc de sotaque caipira a cantarolar versinhos mais ou menos assim: “ganhei na loteria e fui morar na capital, ééééé, eu to bonito hein muiezada, com dinheiro no bolso e caminhoneta importada, éééeé, eu to bonito hein muiezada”.

pois é, um funk rural! e há outros! eu morreria sem ouvi-los se não fosse pelos conhecimentos musicais de Titouan, em Pirenópolis. “moça, vou falar um negócio procê: isso aqui é bão, moça, mas é muito bão!”.  o sotaque do rapazinho de 13 anos contrasta, e muito, com a fala afrancesada de Mimi, sua mãe – aliás, às vezes nem ela entende direito o Continuar lendo

“o pão da Beth” ou “como fui recebida em Goiás”

“você é a Raquel, então? eu sei, a menina do Rio… já me falaram de você”. no princípio, confesso que fiquei um pouco surpresa com a fala do rapaz, mas, pensando bem, até que era mais ou menos natural.

eu havia chegado a Pirenópolis apenas dois dias antes e já acenava para alguns conhecidos na rua. em realidade, num lugar como Piri, conseguir isso não é tarefa das mais difíceis. basta ir à feira, tomar um café no armazém e dar uma volta pelo centro e já está: fatalmente, as carinhas começam a se repetir e você se sente um pouco local.

no entanto, uma coisa é reconhecer as carinhas; outra, bem distinta, é de fato falar com elas. no meu caso, considerando-se a patente timidez que me é constitutiva, dir-se-ia que a simples distribuição de tchauzinhos por minha parte era quase um milagre – apenas alcançado, creio eu, graças à enorme popularidade da Beth dos Pães, que vivia e trabalhava no lugar onde acampei durante minhas primeiras noites na cidade.

como eu disse, é fácil ser popular em Piri. só que eu ainda não sabia disso quando cheguei e, então, a Beth me Continuar lendo