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Eu quero estar velha sem sangue nem par
Saber o meu tempo e viver esse tempo,
Entrar sóbria em casa deixando algum bar Continuar lendo

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O que quer, o que pode essa língua

Tem coisa que criança esquece muito fácil. O fato de que eu, do alto dos meus quase cinco anos, não soubesse pronunciar direito o nome da minha irmã (Veonca) não me impediu de ficar no pé dela corrigindo cada letra que ela punha no lugar errado quando aprendeu a falar. Não é mota, é moto. Não é invomitar, é vomitar. Até a porcaria da música do pintinho amarelinho eu corrigia – e olha que ali era só um lance de afinação, nem tinha erro propriamente. Como se eu fosse alguma Gal Costa. Continuar lendo

Ela

Não sei se deveria ter vindo. Meus dentes estão trincados, travados, faço uma força descomunal apertando os de cima contra os de baixo e o maxilar chega a doer um pouco, mas não consigo deixar de fazer essa pressão. Tenho muito suor nas têmporas e nas mãos – bem mais do que seria normal para o verão carioca -, e o resto do meu corpo está gelado. Um calafrio levanta todos os cabelinhos dos meus antebraços.

Chego um pouco antes do combinado, mas já a vejo sentada em uma das mesas, perto da janela. Bom. Me acalma poder olhar para fora e o céu está lindo. Continuar lendo

Entre nós

Quando eu estava cadavérica, cheia de olheira, almoçando barra de chocolate, com a casa constantemente coberta por tufos de cabelo, fedendo a golfada, criando uma ruga por semana e andando o dia inteiro de cima pra baixo com uma criatura que gritava tão, mas tão alto que simplesmente deixá-la chorando não era uma opção viável, não só porque me partiria o coração, como também porque me partiria os tímpanos – nessa época me diziam: vai passar e você vai sentir saudade disso tudo, vai querer voltar no tempo, e eu achava que as pessoas estavam de sacanagem e que eu nunca teria saudade daquilo. Continuar lendo

O carteiro sem motivos

Não sou nostálgico. Não acho que minhas brincadeiras eram mais puras, que antes se tinha mais respeito, que as melodias eram mais lindas, que o jornalismo era de verdade, que as pessoas realmente conversavam, que aquilo sim era escola, que não havia essa roubalheira, que hoje é a barbárie.

Acho que tudo está ruim e sempre esteve. Quem fala essas besteiras nunca leu livro de guerra nem viu filme de gladiador. O que mais assusta na história do mundo não é que as coisas estejam piorando, mas que estejam iguais. Um monte de guerras, meia dúzia de grandes vitórias sociais e no fim saímos de uma merda pra outra, diferente mas igual, reformada mas nunca revolucionária.

Então ninguém vai me ouvir dizer que a internet desromantizou a comunicação. Sejamos realistas: o corretor dos e-mails é magnífico, não ter que comprar selo é uma maravilha, não passar semanas de agonia enquanto Continuar lendo

A dama

A imagem é brilhante. O lugar é um cortiço. O som é abafado. A gente é real.

Crianças envergonhadas cochicham, sorriem, brincam, escondem o rosto e olham de volta e de novo cochicham. Uma mulher esquálida e sem cor veste apenas uma calcinha velha. Ficam à mostra os peitos algo murchos, o ventre seco e a nudez da cara que estampa um sorriso talvez sem todos os dentes. O homem ao lado tenta apalpar a calcinha e pegar os peitos e ela deixa e se esquiva, deixa e se esquiva, montando um jogo que atinge pequenos ápices quando às vezes os sorrisos se engolem.

Outro plano. Outro casal, mas sempre o mesmo. Ele por cima. O dorso é grande e marrom. A bunda bem formada vai e volta enquanto algo se move por baixo e uma voz fina ri e geme as coisas de sempre – gostoso, vem, vai, ai, goza, gostoso. São talvez outras coisas. São as de sempre. Continuar lendo

Bom dia

Bom dia, bom dia, bom dia. Todo dia.

Estava sempre cansado, sempre tinha trabalhado à noite e sempre de manhã era uma tortura ter que colocar aquela boina e aqueles suspensórios ridículos e dar bom dia pras madames.

Os outros diziam que a roupa ridícula ajudava a criar a ambientação do hotel. O chefe é que dizia, os outros só repetiam. Ele não podia acreditar que os outros realmente achassem aquilo bacana. Ele não reclamava, mas pelo menos não fingia gostar. O prédio era antigo, uns lustres de milhões de anos, um tapete vermelho na entrada, pé-direito altíssimo, pórticos, mármores, grandes corredores, quartos com penteadeira, banheiros muito brancos reformados com ladrilhos novos que imitavam velhos. As louças eram originais. Era bonito.

Era possível morar ali. Em geral pessoas sozinhas Continuar lendo

Staden e eu

No dia em que Staden seria comido, o chefe Cunhãbebe mandou sua esposa, para ela aprovar ou não a carne do pobre alemão.

Pra quê! Foi só ela olhar para Staden que ficou perdidamente apaixonada. E pela cara de Staden, ele sentia o mesmo.

Cunhãbebeza, a esposa do Cunhãnbebe, chegou mais perto do apaixonado alemão e disse:

– Fica calmo, que amanhã eu te tiro daqui.

O alemão ia agradecer, mas não teve tempo, ela disse isso e foi logo embora.

Foi até sua oca e disse para o marido:

– É, a carne parece ser boa, mas não vai dar para comer hoje não. Agente come depois de amanhã. Continuar lendo

Anicca

Ela não existe.

É um espaço vazio com pequeniníssimas partículas que dançam, e as pequeniníssimas partículas são pequeniníssimos espaços vazios em que dançam partes ainda menores, e estes são espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam espaços vazios que comportam vazios até onde não se sabe e até onde talvez nunca se saiba.

Ela não existe.

Se ao menos suas partes não-vazias pudessem parar de dançar por um segundo, se ao menos uma enorme coincidência fizesse com que elas passassem exatamente pelos espaços vazios do corpo à sua frente, o corpo que também não existe, se ao menos fosse possível. Continuar lendo

O menu

Eu tive um namorado que tentava me convencer a beber meu xixi. Juro! Ele era um tipo meio esotérico (naquela época, estava um pouco na moda ser esotérico), dizia que era tônico e evitava doenças, que o povo de sei lá qual deserto e de sei lá quando teria sido dizimado se não tivesse bebido xixi. Meu querido, em situações extremas as pessoas arrancam um pedaço do próprio braço e comem, não é por isso que todo mundo tem que começar a comer coxinha de gente.

Você viu que já teve isso, né? Não faz nem muito tempo, vi na TV quando prenderam esse casal na Bahia (ou era só uma mulher, não lembro, também não lembro direito se foi na Bahia) que tava vendendo coxinha de gente. E sabe o que era pior? As pessoas comiam, não percebiam, não passavam mal…!

Tá com cara de nojo, é? Foi sério o negócio. Mas olha, na verdade eu tô te contando isso pra ver se consigo chegar em outra coisa. Continuar lendo

O marido

Isso aqui não é pra ser exatamente interessante, uma versão menos divertida e inovadora que o Brás Cubas, uma tentativa de fazer literatura, desenterrar as palavras certas. Descobrir.  Desencavernar. Libertar. Engraçado isso, diz que o Michelangelo só tirava a escultura que já estava dentro da pedra, e eu sempre achei que na escrita era por aí também, uma rocha envolvendo as letras. Continuar lendo

seis

Eu sempre pensei que, com o tempo, a dor fosse minguando. Não vai. Segue cheia. Muda um pouco, é verdade. Tanto que agora eu consigo escrever alguma coisa sobre ela.

Também segue cheia a ilusão da presença.

No início do ano eu pesquei no facebook um vídeo com algumas jogadas magistrais do Maradona. “Putz, preciso mandar pro meu pai”. A ideia me veio à cabeça mais rápido que o raciocínio, e o vazio que veio no próximo milissegundo foi um abismo.

Outro dia passei de ônibus com Clarice pelo Campo de Santana. Era dia de São Jorge. Ela quis descer. Entramos na igreja lotada e, enquanto nos esprememos seguindo o fluxo que levava ao altar, eu tentava explicar a ela minimamente o contexto. Finalmente paramos diante da enorme imagem do santo (Clarice gostou do cavalo) e minha ação automática foi a de repetir o que, havia anos, eu pedia mecanicamente Continuar lendo

visita guiada

dizem os entendidos que viajar é importantíssimo para a formação do espírito…

Petrópolis é aquele lugar em numa bela manhã você sai pela sua portaria e, ao mesmo tempo, uma grande amiga de infância e de sempre está passando na calçada, por puro acaso (nada a ver com o encontro que as duas já têm combinado para dois dias depois). você começa a conversar animada e, antes que se passem cinco minutos, olha para a esquerda e vê que se aproxima uma outra grande amiga, com um envelope na mão: é que ela estava justamente indo deixar uma cartinha na sua caixa de correios, como nos velhos tempos.

aí você conversa um pouco mais, reforça o agendamento do encontro e sai andando debaixo daquele céu muito azul e envolta por aquele ar gostoso, então passa na calçada por um senhor, aquele com quem nunca conversou mas de quem tirou um retrato certa ocasião, numa folia de reis anos atrás – o rosto muito preto, os olhos meio úmidos – e que desde então vê bastante na rua, e repara e pensa na foto.

não são necessários muitos mais passos para que Continuar lendo