Perfume

Abri a primeira gaveta da escrivaninha e fiquei tonta: era o cheiro dele. Não exatamente o cheiro dele, mas o cheiro que aquela gaveta tinha quando ele ainda estava lá. Aquilo não acontecia com o banheiro, com os armários, nem mesmo com o lado dele na cama – só com a escrivaninha.

“Cadê o pendrive?”, pensei, sabendo que já não procurava por nada. Eram duas gavetas  pequenas e duas maiores. Estavam ali a antiga escova de roupas, a calçadeira, um chaveiro da época da faculdade, um relógio de bolso, envelopes, papeizinhos de banco, um cartão postal, umas caixas que não ousei abrir e as cadernetas escolares cuidadosamente encapadas com papel, as folhas muito amarelas e gastas, os carimbos das presenças e ausências, as páginas reservadas para as anotações, os informes vindos de casa, o histórico de notas do primário e do ginásio. Continuar lendo

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Como matar o seu ex

Existem muitas formas de acabar com um homem que já dividiu a vida com você. Algumas são  mais sangrentas, outras menos, algumas são muito incriminadoras e outras poderiam virar série americana. Acreditamos que a maneira mais interessante é usar um presente dado por ele.

Nem sempre será possível concluir o assassinato assim, mas o objeto em questão pode servir para iniciar o processo. O salto de um sapato enfiado no olho, um vidro de perfume despejado na garganta, um cordão apertando o pescoço. Talvez ele não seja o tipo que dá presentes caros. Não tem problema: você pode pegar aquela carta de amor que recebeu há três anos, espalhar cianeto, lacrar um pacote e mandar pelos correios.

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Nós

Um homem posa para as fotografias ao lado daquilo que aparenta ser uma mulher, mas é apenas uma versão aperfeiçoada das bonecas infláveis de sempre. Sequer é um robô com inteligência artificial, algo provavelmente tão desnecessário quanto indesejável para o que o ele pretende. É um monte de silicone moldado para ser idêntico a uma figura feminina, só que com o olhar perdido. E com cabeça e vagina desmontáveis – dois detalhes bem relevantes. Continuar lendo

Em que espelho ficou perdida a minha face?

Amanhã é meu aniversário.

Não lembro muito bem quando é que isso deixou de ser uma coisa especial. Quando eu fiz dez anos, tive uma festa deliciosa, talvez a mais deliciosa de todas – óbvio que não foi nada demais, só a minha turma inteira da escola no quintal, a mesa armada na garagem, um bolão daqueles que a gente estourava e caía um monte de doces. Acho que foi o último ano em que me senti muito, muito leve. Continuar lendo

Impróprio para crianças

A mãe e a filha vivem juntas e sós; a mãe trabalha o dia inteiro e provavelmente passa a maior parte do tempo fazendo contas e projeções sobre o futuro da filha pra ver o quanto vai conseguir oferecer com tão pouco, porque quer dar à menina as melhores chances possíveis no melhor mundo possível mas banca tudo sozinha e sabe que não vai ser simples. Todas as decisões tomadas pela mãe têm a filha como motor. Inclusive, é claro, a mudança para casa nova, bem perto da escola maravilhosa e gratuita onde a filha será admitida se conseguir passar pelo difícil processo seletivo – tem vestibulinho por lá. Continuar lendo

O que quer, o que pode essa língua

Tem coisa que criança esquece muito fácil. O fato de que eu, do alto dos meus quase cinco anos, não soubesse pronunciar direito o nome da minha irmã (Veonca) não me impediu de ficar no pé dela corrigindo cada letra que ela punha no lugar errado quando aprendeu a falar. Não é mota, é moto. Não é invomitar, é vomitar. Até a porcaria da música do pintinho amarelinho eu corrigia – e olha que ali era só um lance de afinação, nem tinha erro propriamente. Como se eu fosse alguma Gal Costa. Continuar lendo

Ela

Não sei se deveria ter vindo. Meus dentes estão trincados, travados, faço uma força descomunal apertando os de cima contra os de baixo e o maxilar chega a doer um pouco, mas não consigo deixar de fazer essa pressão. Tenho muito suor nas têmporas e nas mãos – bem mais do que seria normal para o verão carioca -, e o resto do meu corpo está gelado. Um calafrio levanta todos os cabelinhos dos meus antebraços.

Chego um pouco antes do combinado, mas já a vejo sentada em uma das mesas, perto da janela. Bom. Me acalma poder olhar para fora e o céu está lindo.

Um grande incômodo: me vesti segundo critérios que, para mim, definem uma pessoa razoavelmente arrumada, o que significa que coloquei a mesma calça e os mesmos tênis que uso para trabalhar, acompanhados por uma blusa que jamais usaria para trabalhar. Ela, no entanto, usa maquiagem, inclusive nos olhos. Olhos maquiados encabeçam minha lista de critérios que definem uma pessoa muito, muito arrumada.

Um segundo calafrio acorda de novo meus cabelinhos. Tenho uma leve vontade de vomitar.

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Entre nós

Quando eu estava cadavérica, cheia de olheira, almoçando barra de chocolate, com a casa constantemente coberta por tufos de cabelo, fedendo a golfada, criando uma ruga por semana e andando o dia inteiro de cima pra baixo com uma criatura que gritava tão, mas tão alto que simplesmente deixá-la chorando não era uma opção viável, não só porque me partiria o coração, como também porque me partiria os tímpanos – nessa época me diziam: vai passar e você vai sentir saudade disso tudo, vai querer voltar no tempo, e eu achava que as pessoas estavam de sacanagem e que eu nunca teria saudade daquilo. Continuar lendo

O carteiro sem motivos

Não sou nostálgico. Não acho que minhas brincadeiras eram mais puras, que antes se tinha mais respeito, que as melodias eram mais lindas, que o jornalismo era de verdade, que as pessoas realmente conversavam, que aquilo sim era escola, que não havia essa roubalheira, que hoje é a barbárie.

Acho que tudo está ruim e sempre esteve. Quem fala essas besteiras nunca leu livro de guerra nem viu filme de gladiador. O que mais assusta na história do mundo não é que as coisas estejam piorando, mas que estejam iguais. Um monte de guerras, meia dúzia de grandes vitórias sociais e no fim saímos de uma merda pra outra, diferente mas igual, reformada mas nunca revolucionária.

Então ninguém vai me ouvir dizer que a internet desromantizou a comunicação. Sejamos realistas: o corretor dos e-mails é magnífico, não ter que comprar selo é uma maravilha, não passar semanas de agonia enquanto Continuar lendo

A dama

A imagem é brilhante. O lugar é um cortiço. O som é abafado. A gente é real.

Crianças envergonhadas cochicham, sorriem, brincam, escondem o rosto e olham de volta e de novo cochicham. Uma mulher esquálida e sem cor veste apenas uma calcinha velha. Ficam à mostra os peitos algo murchos, o ventre seco e a nudez da cara que estampa um sorriso talvez sem todos os dentes. O homem ao lado tenta apalpar a calcinha e pegar os peitos e ela deixa e se esquiva, deixa e se esquiva, montando um jogo que atinge pequenos ápices quando às vezes os sorrisos se engolem.

Outro plano. Outro casal, mas sempre o mesmo. Ele por cima. O dorso é grande e marrom. A bunda bem formada vai e volta enquanto algo se move por baixo e uma voz fina ri e geme as coisas de sempre – gostoso, vem, vai, ai, goza, gostoso. São talvez outras coisas. São as de sempre. Continuar lendo

Bom dia

Bom dia, bom dia, bom dia. Todo dia.

Estava sempre cansado, sempre tinha trabalhado à noite e sempre de manhã era uma tortura ter que colocar aquela boina e aqueles suspensórios ridículos e dar bom dia pras madames.

Os outros diziam que a roupa ridícula ajudava a criar a ambientação do hotel. O chefe é que dizia, os outros só repetiam. Ele não podia acreditar que os outros realmente achassem aquilo bacana. Ele não reclamava, mas pelo menos não fingia gostar. O prédio era antigo, uns lustres de milhões de anos, um tapete vermelho na entrada, pé-direito altíssimo, pórticos, mármores, grandes corredores, quartos com penteadeira, banheiros muito brancos reformados com ladrilhos novos que imitavam velhos. As louças eram originais. Era bonito.

Era possível morar ali. Em geral pessoas sozinhas Continuar lendo

Staden e eu

No dia em que Staden seria comido, o chefe Cunhãbebe mandou sua esposa, para ela aprovar ou não a carne do pobre alemão.

Pra quê! Foi só ela olhar para Staden que ficou perdidamente apaixonada. E pela cara de Staden, ele sentia o mesmo.

Cunhãbebeza, a esposa do Cunhãnbebe, chegou mais perto do apaixonado alemão e disse:

– Fica calmo, que amanhã eu te tiro daqui.

O alemão ia agradecer, mas não teve tempo, ela disse isso e foi logo embora.

Foi até sua oca e disse para o marido:

– É, a carne parece ser boa, mas não vai dar para comer hoje não. Agente come depois de amanhã. Continuar lendo