Perfume

Abri a primeira gaveta da escrivaninha e fiquei tonta: era o cheiro dele. Não exatamente o cheiro dele, mas o cheiro que aquela gaveta tinha quando ele ainda estava lá. Aquilo não acontecia com o banheiro, com os armários, nem mesmo com o lado dele na cama – só com a escrivaninha.

“Cadê o pendrive?”, pensei, sabendo que já não procurava por nada. Eram duas gavetas  pequenas e duas maiores. Estavam ali a antiga escova de roupas, a calçadeira, um chaveiro da época da faculdade, um relógio de bolso, envelopes, papeizinhos de banco, um cartão postal, umas caixas que não ousei abrir e as cadernetas escolares cuidadosamente encapadas com papel, as folhas muito amarelas e gastas, os carimbos das presenças e ausências, as páginas reservadas para as anotações, os informes vindos de casa, o histórico de notas do primário e do ginásio.

As únicas coisas só dele que ainda estavam dentro daquele apartamento, sobreviventes. Senti uma ternura muito grande pelas cadernetas, como sempre sentia. Imaginei o menino que meu pai havia sido, o cabelo penteado para o lado formando um topetinho, as calças curtas, as lições feitas à noite sob a luz da vela, as brincadeiras no meio da mata, a oficina de carpintaria do tio onde ele e os primos fabricavam carrinhos e lampiões, as disputas pelo bico do pão, a roupa de domingo, o rosto liso, o olhar fresco.

O que aquele menino pensava do futuro? Quantos anos viveria? Com o que sonhava? Onde trabalharia? Sairia de Petrópolis, correria mundo? O mundo naquela época talvez não se estendesse para muito além daquele bairro… Quantos filhos teria, quantos netos, como morreria? Onde?

Lembrei a voz – mais que o rosto – do médico que veio nos encontrar na sala de espera do CTI. Era novo, tão novo, tão verde. O que fazia ele ao sair dali, sempre, depois de informar comas, mortes, pioras de quadro, depois de ver famílias inteiras saindo do hospital aos prantos, depois de voltar às baias e ter com os pacientes? “As notícias não são boas”, tinha dito – era um menino, também um menino! –, esboçando um começo de sorriso, algo como uma tentativa de ser empático mas que a mim me confundiu, como se talvez ainda me restasse a chance de acreditar só no meio sorriso e ignorar as palavras que continuariam saindo daquela boca. Não havia mais nenhuma chance de o meu pai acordar.

Numa espécie de estação de trabalho em que meia dúzia de pessoas, não sei se técnicos, médicos, enfermeiros, não sei, meia dúzia de pessoas desempenhavam aparentemente funções administrativas, um monitor mostrava as imagens de todos os pacientes, as câmeras bem de frente para o rosto de cada um deles, quase todos entubados, irremediavelmente sozinhos. Precisei de uma informação ali. Ficamos, eu e minha mãe, alguns minutos apoiadas no balcão, uma das mulheres resolvendo o que precisava resolver. Na tela, a imagem do meu pai, o rosto praticamente imóvel, só o peito descendo e subindo devagar, um rosto entre os outros, todos péssimos, péssimos, todos de certa forma iguais, aquela mesma camisola, os mesmos aparelhos ao redor, alguns olhos abertos e outros fechados, mas todos desamparados, era impossível saber quais deles estavam ali há um dia ou há uma semana.

Ainda na véspera ele havia falado… Havia estado feliz com a minha presença, na verdade feliz com a sua própria presença – “Dessa vez eu quase fui, eu achei que ia morrer”, tinha dito. O que pensava do futuro, ele, ali, como morreria, quando, onde? “Eu acho que estou sofrendo um pouco”, tinha confessado à minha irmã, e ele sempre dizia que só não queria sofrer. Então o que havia acontecido até ali ainda não era sofrimento?

Uma vez voltei à casa da minha avó. Ela havia morrido meses antes, grandes limpezas já haviam sido feitas, os objetos e roupas já haviam sido doados, e, mesmo assim, quando passei pela porta da cozinha, senti o mesmíssimo cheiro da casa que era o cheiro dela, impregnado em tudo.  

Enfiei minha cara em cada uma das gavetas. Elas precisam durar pra sempre.

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2 comentários sobre “Perfume

  1. Raquel Torres 12/11/2017 / 18:47

    Raquel Gurgel, me ensina a ler você sem me emocionar!! Lindo! Lindo!!

  2. doutrolhar 21/01/2018 / 20:17

    Impossível não mergulhar no seu sentimento… Lindo!

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