Nós

Um homem posa para as fotografias ao lado daquilo que aparenta ser uma mulher, mas é apenas uma versão aperfeiçoada das bonecas infláveis de sempre. Sequer é um robô com inteligência artificial, algo provavelmente tão desnecessário quanto indesejável para o que o ele pretende. É um monte de silicone moldado para ser idêntico a uma figura feminina, só que com o olhar perdido. E com cabeça e vagina desmontáveis – dois detalhes bem relevantes.

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Alguns outros homens aparecem na reportagem. São casados ou têm namoradas, mas preferem as bonecas. O texto, porém, não se esquece das de carne e osso, e termina com a fala melancólica e lacrimejante de uma delas: “Eu me limito aos trabalhos domésticos. O jantar, a limpeza, a roupa”.

Essa leitura me remeteu quase instantaneamente ao filme Ela, que assisti uns meses antes. É a história de uma realidade futura e distópica (utópica, arriscarão alguns), em que todo mundo tem amigos e namorados virtuais. Não como os de hoje, mas absolutamente virtuais. Inteligências artificiais que habitam computadores e celulares, elaboram pensamentos inquietantes, têm sentimentos, são criativos e amam. Homens e mulheres de todas as faixas etárias levam seus celulares para fazer piqueniques, dormem sorrindo para as telas, falam sozinhos nas ruas.

Terminei o filme com uma sensação incômoda que me parecia ir além da óbvia. Certo – já falamos ‘sozinhos’ pelas ruas, já conversamos com nossas telas, com a diferença de que ainda há alguém efetivamente vivo por trás dos aparelhos. Esse era o incômodo superficial, mas eu sentia haver outro, ainda inexplicável para mim.

O círculo fechou quando conheci os homens japoneses e suas companheiras de silicone, que custam milhares de dólares. Então vi que meu incômodo estava nos milhares de dólares.

Na distopia de Ela, as pessoas precisam literalmente comprar amigos e namorados. Pode-se argumentar que não é uma necessidade, já que existem pessoas reais que ainda podem se ver e se falar e se conhecer todos os dias, mas o que são necessidades?

Eu fui a última pessoa do meu círculo de amigos a ter um smartphone. Nunca me agradou, e ainda não me agrada, estar conectada e acessível a todos em tempo integral. E nunca passou pela minha cabeça a ideia de gastar mais do que cem reais por um telefone. Não é necessário, eu dizia. Mas é.

É necessário porque eu não posso trabalhar sem estar por dentro do meio de comunicação mais importante. É instrumento de trabalho de muitos, sem ser fornecido por empregador nenhum. Houve um tempo na minha vida em que eu tinha carteira assinada e, quando chegavam as férias, passava um mês inteiro sem abrir o computador ou ligar o celular. Nenhuma dimensão desse cenário jamais vai voltar a ser real.

E é necessário porque eu percebi que ninguém se lembrava mais de mim.

Passei pouco mais de um ano viajando, vendo regularmente meu e-mail em computadores e uma parte significativa das pessoas não se dignava a responder minhas mensagens. Quando engravidei, escrevi a um grupo de dez ou doze amigas de infância para contar a novidade, e só duas me escreveram de volta.

“Você precisa comprar um celular decente”, me disseram, e eu não entendia por que eu precisava gastar tanto dinheiro para continuar tendo amizades. “É que o whatsapp torna a gente mais próximo”, argumentaram. “Você precisa de um tinder pra conhecer pessoas novas”, insistiram. “A gente fala tudo do trabalho pelo grupo”, me convenceram.

Nossas relações pessoais hoje estão quase completamente absorvidas, mediadas e controladas por parafernalhas caras que se tornam indispensáveis e que, em última instância, não são parafernalhas, mas empresas. Não existe amor fora do capital. Entre nós e os japoneses que amam suas bonecas há uma diferença astronômica, mas a distância entre nossos bolsos e nossos corações é milimetricamente igual.

 

(A foto é de Behrous Mehri e veio daqui)

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2 comentários sobre “Nós

  1. oliviamkdias 27/10/2017 / 00:45

    Essa matéria sobre as novas experiências amorosas dos japoneses também me incomodou profundamente. Nem sei o que pensar direito ainda. Mas gostei da sua visão.

    • Raquel Torres 27/10/2017 / 21:14

      eu fiquei bem incomodada com tudo, e particularmente enojada com uma foto em que aparece um cara com três bonecas segurando bonecos de pelúcia :/

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