Em que espelho ficou perdida a minha face?

Amanhã é meu aniversário.

Não lembro muito bem quando é que isso deixou de ser uma coisa especial. Quando eu fiz dez anos, tive uma festa deliciosa, talvez a mais deliciosa de todas – óbvio que não foi nada demais, só a minha turma inteira da escola no quintal, a mesa armada na garagem, um bolão daqueles que a gente estourava e caía um monte de doces. Acho que foi o último ano em que me senti muito, muito leve.

Depois, em algum momento, comecei a perceber coisas não tão boas acontecendo no mês do meu aniversário, ou muito perto dele. Eu nunca tinha ouvido falar em inferno astral e, quando conheci o termo, achei que era batata. Então tivemos: minha melhor amiga chamando todo mundo pra uma festinha menos eu, minha mãe sem falar comigo por dias, eu descobrindo que meu namoradinho tinha outra namorada (amante era um palavra de gente velha!), meu pai adoecendo, minha vó morrendo, duas grandes amigas deixando de falar comigo pra-todo-o-sempre & um tanto mais. Chegava setembro, eu já ficava cabreira.

De uns anos pra cá, as coisas ficaram ainda mais estranhas porque não consigo perceber com tanta clareza a diferença entre o meu inferno astral e o resto do ano. Não posso dizer que eu seja infeliz, mas também não consigo me manter exatamente muito tempo fora de um estado depressivo. Além das dores verdadeiras, tem essas pequenas porradinhas que se distribuem ao longo do ano e que me fazem sentir mal por elas mesmas, ao mesmo tempo em que me fazem sentir mal justamente por eu me sentir mal – afinal, são apenas porradinhas, não deveriam me deixar assim. É só eu olhar pro lado pra ver o que é sofrimento mesmo.

Um dia, quando conversava com um amigo sobre o quanto eu passei a ter medo de morrer depois que minha filha nasceu, ele disse que sentia o mesmo e que isso era, inclusive, o que o segurava quando começava a ficar deprimido. Faz sentido por aqui.

Este ano a porradinha veio na semana anterior ao aniversário, quando descobri que eu não poderia mais sair para comemorá-lo entre drinks e flertes (até parece) porque apenas o pai da minha filha tem esse direito, eu não. No ano passado foi por pouco: a caminho do samba, recebi uma ligação dele pedindo que eu fosse buscar minha filha por um motivo estúpido. A situação era tão bizarra que consegui me desvencilhar dela (não sem a grande dose de culpa que ele sabia que eu sentiria), mas agora a coisa foi mais bem-feita.

As pessoas passam algum tempo sem me encontrar, aí me encontram e vêm logo perguntar se eu estou namorando. Tenho vontade de gargalhar e gritar que é óbvio que não, eu mal consigo manter minhas amizades, imagina se vou conseguir conhecer alguém com alguma profundidade pra daí pensar em começar qualquer coisa. Mas não dou gargalhada, respondo educadamente que não ando com motivação ou abertura pra isso. O que também é verdade, muito verdade.

Mas junto com a porradinha veio uma boa notícia. Que ainda não é totalmente boa, então tenho um pouco de medo de falar sobre ela, mas o que me ocorreu é que não parece ter sido só coincidência ter recebido as duas – a porradinha e a notícia boa – assim, tão juntas. Parece que uma me empurra pra outra. Uma me diz o que não adianta mais eu brigar pra ter, porque não vale a pena e eu nunca vou ter, e a outra me conta o que ainda me resta, a direção pra onde ainda me é permitido olhar.

Veremos.

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