A mulher que não queria ser professora

Meu primeiro marido me estuprou, o segundo me deixou sem amigos, o terceiro tinha duas amantes e o quarto levou o resto do almoço para as galinhas sabendo que eu ainda não tinha comido. Fui eu quem fez a comida.

Ele disse que a culpa era minha, por não ter feito o bastante. Foi só nesse momento, nesse quarto marido, no instante em que percebi ter menos valor que dois animais que só faziam cagar tudo e nos render, quando muito, dois ovos por dia, só nesse milissegundo eu me dei conta de que nunca mais suportaria estar casada com ninguém. Então eu me sentei diante da mesa da cozinha, olhei para a pia, onde pratos e panelas vazios esperavam que eu os lavasse, e não chorei, porque não precisava mais.

Dois dos meus ex-maridos já vieram me agradecer, com as palavras mais lindas que conseguiram encontrar, por eu tê-los transformado. “Depois que você foi embora vi como você me ensinou a ser bom. Nunca mais vou tratar outra mulher como te tratei”, disse o primeiro. Eu não sabia como devia entender aquelas palavras, mas era tão tola que me senti um pouco lisonjeada. Ele se casou logo depois e deu em cima de mim logo depois também. Típico. Quando o último me procurou para contar o quanto tinha amadurecido por minha causa eu já parei de ouvir na segunda frase e olhei bem nos olhos dele enquanto fazia mentalmente a soma dos meus boletos pra ver quanto dinheiro ia sobrar para o conserto do telhado.

É muito interessante o mundo em que esses homens vivem, um mundo em que às mulheres cabe o papel de ensiná-los, na base da porrada (porrada nelas, que esteja claro), como não serem completos babacas. Não que eles aprendam. Alguém que estupra a digníssima esposa ou a coloca depois das galinhas em ordem de importância não poderá nunca deixar de ser babaca. Mas nesse mundo, o mundo desses homens, que é sempre muito parecido com o mundo real, há um exército de mulheres generosas, angelicais, caridosas e desprendidas a quem se dá a chance de lutar dia após dia para consertar o coração de homens que só não se tornaram bondosos ainda por falta de chance.

Às vezes, quando estou muito cansada depois de uma semana difícil no trabalho, ou com as crianças, ou com as contas que não fecham, durmo pesadamente e sonho que estou picando meus aprendizes em pedacinhos. Os três primeiros eu jogo no lixo. Com o último eu faço canja.

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