Impróprio para crianças

A mãe e a filha vivem juntas e sós; a mãe trabalha o dia inteiro e provavelmente passa a maior parte do tempo fazendo contas e projeções sobre o futuro da filha pra ver o quanto vai conseguir oferecer com tão pouco, porque quer dar à menina as melhores chances possíveis no melhor mundo possível mas banca tudo sozinha e sabe que não vai ser simples. Todas as decisões tomadas pela mãe têm a filha como motor. Inclusive, é claro, a mudança para casa nova, bem perto da escola maravilhosa e gratuita onde a filha será admitida se conseguir passar pelo difícil processo seletivo – tem vestibulinho por lá.

Só que temos uma imagem caricata. A a exaustão, a autocobrança e a frustração da mãe aparecem aqui e ali, mas, crianças que somos, ficamos com as impressões da menina, e elas não são as melhores. A mãe não parece mãe-gente, mas mãe-máquina, mãe-general fuzilando ordens, planilhas e horários. Há um plano diário totalmente detalhado, com horários para alimentação, banho e, é claro, estudo – muito estudo durante as férias inteiras para que o futuro se abra brilhante na frente das duas. Vestibulinho. Não é vida de criança, não tem alegria, não tem liberdade.

Até que…

Um vizinho misterioso, velhinho e estabanado quer a atenção da menina. Chama, ela não se distrai. Manda bilhete no aviãozinho, ela não se distrai. Bem, só um pouco. Começa a olhar diferente. E um dia vai, escondida, com medo, vai. E a casa do velhinho é feito um parque de diversões mas melhor, porque tem ainda por cima as histórias do velhinho, de quando era pequeno, bem pequeno, e se perdeu em outro planeta…

A mãe volta cansada, dia após dia, e encontra a menina em casa, com as tarefas supostamente cumpridas. Ufa, respira aliviada. O futuro logo ali.

A menina mente. Como poderia contar a verdade? Crianças que somos, sabemos: é um momento em que se precisa mentir. Tão logo a mãe sai para o trabalho, a filha escapole para a casa ao lado. Na sua própria tudo é branco e cinza, relógio apitando, medo. Do lado de lá tudo é cor, brilho e liberdade. Liberdade!

Não é para causar estranhamento, só emoção. É pra fazer chorar – assim disse o diretor. É pra mostrar lições, valores importantes.  Se você é mãe (ainda que solteira, o pai da criança sem dar um centavo nem um minuto), precisa relaxar, olhar mais pro aqui agora, deixar de ser essa máquina de angústia e preocupação e curtir a vida. Se você é criança, tudo bem ir escondido na casa do vizinho velhinho que tem um monte de brinquedos de criança em casa. Tudo bem, sua mãe não entenderia. Às vezes pequenas mentiras levam a grandes aventuras e alegrias. Aliás, o segredo é ponto de partida de várias aventuras em filmes infantis.

Vi esse desenho do Pequeno Príncipe sozinha. Só veria com um filho ou filha se depois pudéssemos ter uma boa conversa sobre tudo isso. Levar para exposição com homem nu? Sim, levaria. E talvez a conversa nem fosse necessária.

Anúncios

2 comentários sobre “Impróprio para crianças

comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s