O que quer, o que pode essa língua

Tem coisa que criança esquece muito fácil. O fato de que eu, do alto dos meus quase cinco anos, não soubesse pronunciar direito o nome da minha irmã (Veonca) não me impediu de ficar no pé dela corrigindo cada letra que ela punha no lugar errado quando aprendeu a falar. Não é mota, é moto. Não é invomitar, é vomitar. Até a porcaria da música do pintinho amarelinho eu corrigia – e olha que ali era só um lance de afinação, nem tinha erro propriamente. Como se eu fosse alguma Gal Costa.

Talvez ela veja com certa surpresa (e alívio) minha não-interferência – em termos de correções, é claro – nos processos de aprendizagem da Clarice. Não é só que eu não tenha vontade de corrigi-la. É mais: sempre que ela acerta uma palavra que antes vinha meio torta, sinto ao mesmo tempo um orgulho bobo e uma saudade engraçada.

Semanas atrás ela pediu água, como se aquela palavra sempre tivesse saído assim, tão clara. Meu pai não se conformava com a menina pedindo “aaa”, enquanto, dizia ele, toda criança aprendia logo a pedir “ága”. O coitado tentou ensinar várias vezes essa última opção. Nunca teve sucesso. Quando finalmente houve uma mudança – e isso ele não chegou a ver – , o líquido não virou ága, mas  águ. Ou á-gô, nos momentos de impaciência. Até que… Pois é, acabou-se. É como se cada uma dessas palavras polidas fosse o fim de uma historinha.

E Clarice, como eu, como todas… esquece. Logo na segunda água bem articulada, eu testei um comentário: “Sabia que quando era menor, você não conseguia falar essa palavra? Você falava águ”. Ela morreu de rir, incrédula, como se eu estivesse falando algum absurdo.

Coladinha com a água certa veio outra bomba: “Ué, onde eu deixei minha pantufa?”, perguntou a menina, acabando de uma vez por todas com a tampufa que eu tanto adorava. Com a rapidez dessas últimas mudanças, dei pra saborear ainda mais cada letra enganada. Futebol sendo chutebol, beterraba sendo tebeaba, capacete sendo pacacete, aniversário sendo avevessário, gente sendo zente, sábado sendo sábido, panqueca sendo panteca, observar sendo abucervar, manobrar sendo namorar, computador sendo pucador, organizar sendo aguinizar, dividir sendo vividir. E como gracinha pouca é bobagem, ela ainda reconhece:  “Eu sei que não é assim, só que eu falo um pouco diferente”. Tem os plurais: vou chamar meu amigos, vou escolher o livros.  Tem as internacionais: sôerebôgue (levei séculos pra entender o pedaço da – até então desconhecida pra mim –  canção Sou Ladybug) As conjugações de verbo são uma delícia à parte: solti um pum, já fali, fiqui na vovó e outras dessas maravilhas estão quase extintas por aqui e, sempre que ouço, tenho a sensação de que pode ter sido a última vez.

De um certo jeito, sempre é.

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6 comentários sobre “O que quer, o que pode essa língua

  1. Dante Gastaldoni 07/09/2017 / 00:10

    Que gracinha a Clarice! Que delícia de crônica!

    • Raquel Torres 18/09/2017 / 21:59

      sim, muito fofa :)
      o seu também deve estar fazendo várias gracinhas!

  2. Silvia Pereira 07/09/2017 / 16:01

    Delícia de leitura

  3. Veronica 11/09/2017 / 09:53

    Owm! Que lindinha! Um bom registro afetivo<3

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