Ela

Não sei se deveria ter vindo. Meus dentes estão trincados, travados, faço uma força descomunal apertando os de cima contra os de baixo e o maxilar chega a doer um pouco, mas não consigo deixar de fazer essa pressão. Tenho muito suor nas têmporas e nas mãos – bem mais do que seria normal para o verão carioca -, e o resto do meu corpo está gelado. Um calafrio levanta todos os cabelinhos dos meus antebraços.

Chego um pouco antes do combinado, mas já a vejo sentada em uma das mesas, perto da janela. Bom. Me acalma poder olhar para fora e o céu está lindo.

Um grande incômodo: me vesti segundo critérios que, para mim, definem uma pessoa razoavelmente arrumada, o que significa que coloquei a mesma calça e os mesmos tênis que uso para trabalhar, acompanhados por uma blusa que jamais usaria para trabalhar. Ela, no entanto, usa maquiagem, inclusive nos olhos. Olhos maquiados encabeçam minha lista de critérios que definem uma pessoa muito, muito arrumada.

Um segundo calafrio acorda de novo meus cabelinhos. Tenho uma leve vontade de vomitar.

Sorrio exageradamente, me aproximo, ela se levanta, dois beijinhos. Acabei de chegar, já pedi uma brahma pra gente abrir os trabalhos, deve estar vindo. Maravilha. Sempre gosto de quem pede brahma.

Eu transei com o marido dela por oito anos. Eles se separaram e voltaram a viver juntos três vezes nesse período (nos intervalos, ele teve outras duas namoradas que nunca eram eu) e só um elemento esteve presente na vida dos dois, ininterruptamente, durante esse tempo, e esse elemento fui eu, também conhecida como a outra, amante, também conhecida como vaca, puta, vadia, também conhecida como estepe, estúpida.

Os olhos dela são muito grandes e vivos, de um castanho bem escuro que é a cor exata dos seus cabelos. Esses olhos me encaram de um jeito estranho, como se não estivessem fixos no meu rosto, mas em alguma coisa além. É assim agora e foi assim quando nos vimos pela primeira vez, ele nos apresentando com uma cara muito babaca e eu tendo a certeza de que ela soube tudo ali mesmo.

Tento agora fazer o mesmo, olhar lá dentro, mas não consigo. Tem um mundo ali, fora do meu alcance: o marrom daqueles olhos é impenetrável.

Ao contrário do que me foi ensinado a vida toda e por vários meios, eu nunca me senti em uma disputa, nunca esquadrinhei o corpo dela em busca de defeitos, nunca investiguei suas ideias em busca de contradições, mas era inevitável comparar. Naquele primeiro dia eu achei que ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto. Ainda acho.

Conversamos amenidades, meu suor aumenta e os calafrios somem. Me pergunto daqui a quantas brahmas vai começar o tema da traição e que cara eu vou fazer. Eventualmente o tema vem, não faço cara nenhuma e ele vai – já não há nada a explicar, o mundo dentro dela já há muito compreendeu o meu. Não há raiva, só uma espécie de pena mútua e uma cumplicidade quase bonita.

Passamos do supérfluo ao profundo. Os olhos dela vão ficando pequenininhos, parecem rir sozinhos. Rimos muito e com o corpo todo. O bar vai fechar, tem outro em frente. Mudamos.

As mãos dela são lisas, os nós dos dedos finos. As minhas são pequenas mas enrugadas, calosas, grossas. Sempre foram assim, minha mãe diz que eu tenho mãos de homem. Ela tem um anel meio hippie no indicador da mão esquerda. Sinto imensa vontade de tocá-la. Quase faço isso – minha mão para no meio do caminho. Ela vê, e vê dentro. Sorri.

É minha hora preferida da madrugada: lusco fusco. Sinto um novo e último calafrio. De repente percebo a rigorosa harmonia entre o desenho do nariz dela e o formato do seu rosto. A boca agora se abre mais e mais em cada risada e toda a minha atenção se volta para os dentes, muito brancos. O espaço grande entre os dois da frente, em cima, é especialmente bonito. O batom foi embora com as cervejas e estou quase certa de que essa já é a cor original da boca. Fica bem melhor assim. Me aproximo. O sorriso se dilata. Amanhece.

Anúncios

3 comentários sobre “Ela

  1. Silvia Pereira 06/08/2017 / 01:21

    Adorei, Raquel! Parabéns!

  2. Dante Gastaldoni 06/08/2017 / 01:31

    Gostei da “cumplicidade quase bonita”. E o livro, quando sai?

  3. Leila 07/08/2017 / 13:47

    Que coisa mais linda!

comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s