Perdida

São três horas da tarde de um domingo ensolarado, mas ainda não vi muito bem o sol, além de nos momentos em que saí para estender as roupas que bati. Três máquinas hoje, quatro ontem. É outono, dias de sol forte precisam ser bem utilizados. E, felicidade!, temos máquinas de lavar.

Fui dormir ontem à uma da manhã e acordei relativamente tarde, às sete e meia. Levantei assustada, entrei esbaforida na cozinha e só terminei o que havia planejado para ela às duas da tarde, mas me dei conta de que ainda não tinha conseguido tomar café da manhã.

Almocei.

Estou finalmente sentada e trabalho.

Minha irmã me telefona, desculpando-se por me atrapalhar. Digo que não atrapalha e, mais que isso, agradeço e, mais que isso, choro: me sinto feliz por poder ouvir alguma voz hoje.

Desligamos.

Me desespero pensando na minha lentidão, na minha incapacidade de dar conta das coisas mais simples, desde a casa até os talentos. Não lembro quando foi a última vez que saí pra uma cerveja ou sentei pra ver um vídeo, que não fechei o mês no vermelho, que senti tesão em qualquer coisa. Qualquer coisa. É isso, viver?

Em um outro momento (outra vida?), eu estaria fazendo tricô com uma taça de vinho do lado e um bom filme na frente, teria passado a manhã deitada sob o sol e sobre o gramado que eu mandei botar usando um dinheiro que não tinha, passaria feriados em Trindade e voltaria direto pro trabalho cheia de olheiras mas pronta pra outra, entraria num museu sem hora pra sair, sairia pra tomar uns tragos com o pessoal do escritório, chegaria em casa meia-noite em dia de semana.

Em um outro momento (outra vida), eu faria tudo o que precisa ser feito nos pequenos espaços livres das minhas noites, os fins de semana seriam divididos entre o meu prazer pessoal e passeios deliciosos com a minha filha – fins de semana de margarina, eu cuidaria do jardim, teria uma horta, seguiria à risca o calendário biodinâmico e faria homeopatia pros tomates, faria comida fresca todo dia, trabalharia no computador enquanto a criança brincaria ao meu lado.

Em um outro momento, eu fiz muito disso e não havia sentido. Neste momento, há sentido e não há condições para que o fazer aconteça. Cresci ouvindo que era inteligente, muito inteligente. Que poderia ser qualquer coisa. Poderia? “Não adianta fazer o que se gosta”, o meu pai dizia, mas era fácil dizer isso quando se amava verdadeiramente um trabalho necessário e valorizado. “Preciso fazer o que eu gosto”, eu dizia e minha mãe concordava, e acho que nenhuma de nós percebia a armadilha que se escondia por trás disso.

Minha inteligência não me serve, concretamente, pra nada ou quase nada. Não fui o que precisava ter sido e o que esperavam de mim, não dei pro mundo o justo retorno que deveria. Tenho uma filha que me demanda e que confia em mim e que não sei se deveria poder confiar – ela não vai ter uma vida melhor que a minha, talvez em nenhum aspecto, como pais e mães ao redor do globo gostam de esperar. Ao mesmo tempo, sempre me parece tarde pra mudanças e eu aposto todas as minhas fichas em cartomantes e astrólogas que me garantem que minha estrela vai brilhar e eu vou me sentir muito realizada, e não o faço porque acredite nelas, mas porque preciso ouvir que alguém ainda acredita em mim.

 

***

 

Inspirada no conto Perdida, de Eliane Brium

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2 comentários sobre “Perdida

  1. Dante Gastaldoni 14/06/2017 / 19:24

    Aí, tô usando minha prioridade de velho para furar a fila e dizer que acredito muito em você.

comentários

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