O carteiro sem motivos

Não sou nostálgico. Não acho que minhas brincadeiras eram mais puras, que antes se tinha mais respeito, que as melodias eram mais lindas, que o jornalismo era de verdade, que as pessoas realmente conversavam, que aquilo sim era escola, que não havia essa roubalheira, que hoje é a barbárie.

Acho que tudo está ruim e sempre esteve. Quem fala essas besteiras nunca leu livro de guerra nem viu filme de gladiador. O que mais assusta na história do mundo não é que as coisas estejam piorando, mas que estejam iguais. Um monte de guerras, meia dúzia de grandes vitórias sociais e no fim saímos de uma merda pra outra, diferente mas igual, reformada mas nunca revolucionária.

Então ninguém vai me ouvir dizer que a internet desromantizou a comunicação. Sejamos realistas: o corretor dos e-mails é magnífico, não ter que comprar selo é uma maravilha, não passar semanas de agonia enquanto espera resposta é um alento pros ansiosos, enfim, nada a reclamar.

Não sinto falta de escrever cartas. Mas sinto falta de interceptá-las.

Ter esse poder foi a única coisa que me motivou na escolha (e manutenção) de um emprego. Tudo parecia vazio. Trabalhar pra quê? Pra ganhar dinheiro. Dinheiro pra quê? Pra pagar aluguel e comida. Morar e comer pra quê? Eu não tinha resposta. Eu não teria continuado levantando da cama se não tivesse vislumbrado a possibilidade real de pegar pra mim um pedaço da vida dos outros sem ter que matar os outros – um tipo como eu nunca chegaria a tanto.

Levantei, mas não sabia que ia durar tão pouco. Nos início eu levava pra casa, no mínimo, uma por dia. Tinha alguns critérios de seleção: letras pouco floreadas, tinta preta, endereços de outros continentes e nomes exóticos eram fortes candidatos ao desvio. Caligrafia infantil era um impeditivo porque eu não seria capaz de tamanha maldade.

Tenho em casa uma vasta coleção de memórias dos outros, que inclui chatíssimas declarações de amor, diários de prisão, planos de fuga, peças literárias, histórias de lua de mel, gracinhas de criança.

Rapidamente o negócio começou a rarear porque caiu o preço do interurbano, mas ainda vinham uns cartões de aniversário e de natal, fotos de netos, relatos enormes e detalhados da vida em outro país e os benditos cartões postais, que muitas vezes salvavam a semana.

Com o e-mail, meu lote diário de entregas ficou praticamente restrito a pacotes, contas e revistas. As redes sociais foram a pá de cal. Algumas pessoas ainda não se desfizeram do encanto de enviar postais, que chegam ridiculamente dois meses depois de escritos e, na certa, já com o viajante de volta. Faz meses desde que peguei a última carta, de uma moça muito jovem que lia Clarice Lispector e só queria parecer antiga. “Você é tão antiga, minha flor, que eu deveria lhe dar a beber vinho numa ânfora”, disse Ulisses para Lóri, “Você é tão antiga, minha flor, que deveríamos nos escrever cartas”, queria ouvir a moça. Eu também li Uma aprendizagem… Sobre Clarice ela escreveu na carta, o gosto pela personagem antiga adivinhei eu.

De modo que voltei ao fundo do poço. Ainda sem uso pro dinheiro, agora sem uso pro tempo. Não quero levantar da cama.

Meu último divertimento levou mais de um ano pra terminar. Uma traquinagem: peguei minhas cartas, juntei remetente de uma com destinatário de outra, copiei com minha melhor letra em envelopes novos, enfiei numa caixa gigante e mandei tudo ao mesmo tempo, com o apoio inestimável daquela coroa da agência que me dá uns moles. Agora já posso me deitar.

 

***

Inspirada pelo livro Flores Azuis, de Carola Saavedra, mote do Clube das cartas perdidas e achadas.

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Um comentário sobre “O carteiro sem motivos

  1. Veronica Gurgel 03/06/2017 / 18:39

    Se tivesse um botãozinho de curtir, eu curtiria. Já que não tem, deixo o comentário para falar que curti, rs. Achei muito bom o desenvolvimento desse texto :)

comentários

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