A dama

A imagem é brilhante. O lugar é um cortiço. O som é abafado. A gente é real.

Crianças envergonhadas cochicham, sorriem, brincam, escondem o rosto e olham de volta e de novo cochicham. Uma mulher esquálida e sem cor veste apenas uma calcinha velha. Ficam à mostra os peitos algo murchos, o ventre seco e a nudez da cara que estampa um sorriso talvez sem todos os dentes. O homem ao lado tenta apalpar a calcinha e pegar os peitos e ela deixa e se esquiva, deixa e se esquiva, montando um jogo que atinge pequenos ápices quando às vezes os sorrisos se engolem.

Outro plano. Outro casal, mas sempre o mesmo. Ele por cima. O dorso é grande e marrom. A bunda bem formada vai e volta enquanto algo se move por baixo e uma voz fina ri e geme as coisas de sempre – gostoso, vem, vai, ai, goza, gostoso. São talvez outras coisas. São as de sempre.

Close. O homem desaba por cima, o rosto cai pro lado. Pro outro. Aquilo que estava por baixo enfim emerge. A mulher. Ela pensa na nota amassada que ele vai largar em cima da cama antes de ir, a nota que é o quanto vale o seu corpo gasto e surrado e velho, mesmo novo. A boca não sorri – esconde os dentes ou a falta deles. O homem não vê. Longe dos olhos dele, os dela encaram o teto e vão muito além do teto, e se tornam brilhantes feito vidro, úmidos feito gelatina, encharcados feito espelho d’água. Nenhuma gota se solta.

A espectadora pisca com força, os olhos e o nariz escorrendo. Sai da sala. Respira. Talvez tome uma cerveja mais tarde.

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