Bom dia

Bom dia, bom dia, bom dia. Todo dia.

Estava sempre cansado, sempre tinha trabalhado à noite e sempre de manhã era uma tortura ter que colocar aquela boina e aqueles suspensórios ridículos e dar bom dia pras madames.

Os outros diziam que a roupa ridícula ajudava a criar a ambientação do hotel. O chefe é que dizia, os outros só repetiam. Ele não podia acreditar que os outros realmente achassem aquilo bacana. Ele não reclamava, mas pelo menos não fingia gostar. O prédio era antigo, uns lustres de milhões de anos, um tapete vermelho na entrada, pé-direito altíssimo, pórticos, mármores, grandes corredores, quartos com penteadeira, banheiros muito brancos reformados com ladrilhos novos que imitavam velhos. As louças eram originais. Era bonito.

Era possível morar ali. Em geral pessoas sozinhas alugavam os quartos piores, os que não eram reformados,e garantiam assim uma renda fixa pro hotel, que arrumava um jeito de sobreviver à baixa temporada. E ali morava também a família do dono. Num quarto reformado, é claro. O chefão, a esposa e um filho adolescente idiota.

Idiota mesmo. Nariz empinado, resmungão, respondão, reclamão, filhinho de papai. Riscava elevador, fumava no restaurante, 14 anos na cara e ainda jogava porrolho no banheiro. Idiota.

Aí começou a andar de skate e fumar uns baseados, pronto, foi um deus nos acuda na família. Não era possível, as más companhias, esses garotos com quem o bruninho estava andando, isso era um perigo etc. Os garotos eram bem idiotas também. Riam da cara do porteiro, narravam as merdas deles aos berros perto do porteiro, vinham dizer quero-ver-se-você-vai-falar-alguma-coisa e o porteiro só bom-dia.

Até que o triste pai decidiu cortar o mal pela raiz, o que na cabeça de mercador dele significava contratar um segurança pra vigiar o bruninho. Sim, senhores, ele achou que pagar alguém pra ficar na cola do menino ia fazer dele um doce de pessoa. O bruninho não era idiota à toa, como se vê.

O segurança saía com bruninho pela manhã. Os colegas do bruninho não podiam mais entrar. Na hora do almoço o bruninho subia pra casa e o segurança ficava sentado no saguão. Olhando pro porteiro. Sem parar. Quase sem piscar. O porteiro não conseguia mais tirar os olhos do segurança. Mal falava com os hóspedes, esquecia de cumprimentar, dava informação truncada. Tinha medo. De quê? Nem ele sabia. Aqueles dois olhos pretos do segurança, em cima dele por horas, eram enlouquecedores. O porteiro sentiu que o segurança sabia tudo dele. O passado, os pensamentos, o desejo de matar o chefão, o emprego noturno que ele mantinha em segredo pra ajudar a esconder o cansaço diário, a vontade de esfregar a fuça do bruninho chão do banheiro, as olhadas gulosas pra bunda da patroa.

Um dia o porteiro chegou bem perto: escuta aqui, ou tu para de me encarar ou eu te arrebento, tu não me conhece, eu não tenho medo e tu nem anda armado, valeu?

O segurança pediu demissão. Otário.

Bom dia, bom dia, bom dia, e a vida do porteiro voltou à chatice dos seus dias.

 

***

 

Continho inspirado pelo Clube do Cumprimento Drummondiano, que teve como mote a Canção para Álbum de Moça, de Drummond.

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