Staden e eu

No dia em que Staden seria comido, o chefe Cunhãbebe mandou sua esposa, para ela aprovar ou não a carne do pobre alemão.

Pra quê! Foi só ela olhar para Staden que ficou perdidamente apaixonada. E pela cara de Staden, ele sentia o mesmo.

Cunhãbebeza, a esposa do Cunhãnbebe, chegou mais perto do apaixonado alemão e disse:

– Fica calmo, que amanhã eu te tiro daqui.

O alemão ia agradecer, mas não teve tempo, ela disse isso e foi logo embora.

Foi até sua oca e disse para o marido:

– É, a carne parece ser boa, mas não vai dar para comer hoje não. Agente come depois de amanhã.

– Tá bom. Agente começa a cozinhar amanhã. – e foi dormir.

Cunhãbebeza esperou uns dez minutos para que seu marido entrasse num sono profundo, e não esperou mais: correu em direção aos braços do seu amado.

Ela começou a agarrar Staden, que não entendia nada. Olhou bem nos olhos dele e disse:

– Te amo. Foge comigo!

– Vamos embora, amor da minha vida! Quero sair daqui.

Cunhãbebeza pegou a canoa do seu marido… ex-marido, e fugiu com seu namorado.

Eles foram para a Alemanha, se casaram, e após muitos anos juntos, continuaram se amando:

– Pô, você não faz nada, fica só aí, sentado, lendo sobre índio!

– Tá reclamando de quê? Sua velha coroca! Eu  não te mandei fugir comigo!

– Eu nunca devia ter largado o Cunhãnbebe!…
***

 

Achei isso sem querer, procurando outra coisa. Minha mania de guardar tudo não é inexplicável: embora vó Lila seja tranquila, vó Bertha guardava até micropedaços de sabonete usado, seringas de vidro com décadas de idade, remédios vencidos, papeis de presente pouco vincados. Meus pais limitaram o hábito, mas não no que se refere às nossas quinquilharias de infância. Ficou tudo lá. Agora tá tudo aqui. A historinha aí de cima tá sem data, mas algumas evidências – a forma da letra, o desenho eu fiz pra ilustrar, o simpático agente e a própria dinâmica do exercício, que consistia em imaginar a continuação de uma história já dada – sugerem que ela deve ter vindo da terceira série.

Acho que todas as redações e testes e provas do ensino fundamental estão aqui. Do ensino médio eu mantive só alguma coisa, porque não tinha mais graça. Aliás, é nada menos que terrível a obsessão do ensino médio por dissertações argumentativas. Dissertar sobre qualquer tema, sobre aquilo que você nunca parou um segundo pra pensar na vida mas que vai agora encher 30 linhas. É quase como textão de facebook, mas muito mais chato: mínimo de três parágrafos, introdução sempre igual (nos dias de hoje, atualmente, muito se diz etc), argumentação vazia (dois ou três argumentos), conclusão retomando a introdução (portanto, assim, conclui-se que) só pra constar. E nunca, em hipótese alguma, dar corda para a primeira pessoa do singular. Eu era boa, o que não é exatamente legal: um dia a professora disse que eu lembrava o Jabor, falou pra elogiar e fiquei fula. Só por dentro, claro.

Na engenharia não se exigia história nenhuma em formato algum e aí as ideias vinham, às vezes. Eu detestava tudo naquele lugar, inventava a história dos professores (um tinha câncer, outro era poeta), fazia sonetinho comédia sobre a resistência dos materiais. Escrevia todo dia. Metade não prestava, um quarto era cópia fajuta do que eu estivesse lendo no momento, um oitavo era brincadeira com a própria engenharia, um oitavo acho que era ok.

Daí fui fazer jornalismo e, que piada, parecia uma versão mais punk do ensino médio. Lide, sublide, sem gerúndios, sem orações subordinadas, sem nariz-de-cera, sem frases longas, sem palavras polissílabas. Por sorte fui trabalhar num lugar em que o textão era livre – no tamanho, não na forma, porque também não era bagunça. Há pouco tempo descobri, me disseram, que as pessoas só leem 70% dos textos na internet. Ou menos, não sei direito porque não consegui ou não quis reter a informação correta. Uma tática jornalística é usar as últimas linhas, 30% do texto, pra não dizer nada importante. Quem parar antes não vai ter perdido nada, quem seguir até o fim só vai gastar mais uns segundos com inutilidades. O medium traz antes de cada texto o tempo que a pessoa vai gastar lendo aquilo. Me disseram que não é bom ultrapassar três minutos, ninguém lê. E a pessoa só vai cumprir dois, porque o terço final vai pro espaço. O que está bem pra dar notícias pontuais, mas como explicar minimamente qualquer coisa mais complicada em um texto de dois minutos?

Mas eu não ia resmungar sobre jornalismo aqui, ia só dizer que a escrita era realmente uma parte importante da minha infância e adolescência, dentro e fora da escola: era fácil, era prazeroso, era descompromissado e, quando eu precisava, era o melhor meio de comunicação (não sei e nunca soube falar). Quando comecei a estudar jornalismo, parei de escrever histórias. Foi instantâneo. Voltei um pouco, aqui, enquanto viajava, mas tão pontualmente que nem se pode chamar retorno.

E agora essa intromissão no clube de leitura, esse espiar de longe e digitar daqui, esse ato de novo descompromissado e prazeroso (mas já não muito fácil), mesmo que ainda poucas vezes, mesmo que não fique legal, mesmo que eu não tenha tempo, caramba, faz uma diferença incrível pra minha cabeça. Com certeza extrapolei os três minutos. 

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