O menu

Eu tive um namorado que tentava me convencer a beber meu xixi. Juro! Ele era um tipo meio esotérico (naquela época, estava um pouco na moda ser esotérico), dizia que era tônico e evitava doenças, que o povo de sei lá qual deserto e de sei lá quando teria sido dizimado se não tivesse bebido xixi. Meu querido, em situações extremas as pessoas arrancam um pedaço do próprio braço e comem, não é por isso que todo mundo tem que começar a comer coxinha de gente.

Você viu que já teve isso, né? Não faz nem muito tempo, vi na TV quando prenderam esse casal na Bahia (ou era só uma mulher, não lembro, também não lembro direito se foi na Bahia) que tava vendendo coxinha de gente. E sabe o que era pior? As pessoas comiam, não percebiam, não passavam mal…!

Tá com cara de nojo, é? Foi sério o negócio. Mas olha, na verdade eu tô te contando isso pra ver se consigo chegar em outra coisa. Você sabe por que ninguém percebia? Porque o gosto é normal, se a pessoa estiver bem temperada. Pode ver o relato dos clientes da coxinha.

Escuta, eu posso te contar um segredo? Acho até difícil que você já não saiba. Acho que vocês fingem. Não sei. Já contei pra várias pessoas, nenhuma acreditou em mim. Você vai acreditar em mim, não vai? Você já começou a fazer aquela cara, a cara de pena. Olha, chega mais perto, eu vou falar baixo: elas aqui colocam gente na nossa comida.

Ah, não faz essa cara! Eu vi! Um dia eu abri o congelador e vi um negócio embrulhado num saquinho e vi um olho. E sabe o que mais? Era o olho da Dona Maria José. Eu reconheceria aquele olho em qualquer lugar. Eu juro. Por que você acha que não deixam a gente ver os mortos, hein? De novo essa cara. Para com essa cara, viu? Nervosa? Minha filha, amanhã ou depois vão acabar comigo e as outras vão comer minhas tripas com farofa. Você quer que eu fique calma? Sai daqui, me deixa ficar nervosa! Você é igual às outras! Igual, ouviu? Sai daqui! Ei! Eu não preciso de outro remédio! Ei! Aposto que é você quem congela a gente, sua…! Socorro! Me solta! Larga essa injeção! Socorro! Me larga! Socorro!

Conto inspirado pelo Clube de Leitura e Escrita, que este mês teve como mote um trecho do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

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Um comentário sobre “O menu

  1. Dante Gastaldoni 12/04/2017 / 16:11

    👏🏻 Comer coxinha de gente (ou seria gente coxinha?) até que não é má ideia… Muito bom te ler!

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