O marido

Isso aqui não é pra ser exatamente interessante, uma versão menos divertida e inovadora que o Brás Cubas, uma tentativa de fazer literatura, desenterrar as palavras certas. Descobrir.  Desencavernar. Libertar. Engraçado isso, diz que o Michelangelo só tirava a escultura que já estava dentro da pedra, e eu sempre achei que na escrita era por aí também, uma rocha envolvendo as letras.

Mas aqui não: as palavras lá dentro vão sair só o suficiente pra que expliquem as coisas, mas ainda serão duras, soltas, feias, não merecem o martelinho e assim é o único jeito.

Eu não lembro como começou. Sei que durante um tempo a gente parecia um casal normal. Depois continuou parecendo: ia acabar. Normal. Mas aí ele começou a sugerir coisas. Não eram pedidos, eram sugestões. Jogava no ar. Que talvez funcionasse se. Que ele sempre teve vontade de. Que alguns casais faziam. E fomos fazendo. Primeiro não, primeiro eu não fiz. Então ia acabar, e ele sugeria, e eu não fazia, e ele se deprimia e sugeria e eu fiz. Não era que eu não quisesse. Bem, eu não queria. Mas pensando bem não era nada demais, sacrifício bobo. Na vida a dois a gente tem que aprender a ceder. Não me feria, e eu topava.

E foi avançando tão devagar que eu não percebi quando começou a ferir. Não fisicamente, veja, não era fisicamente. Era difícil perceber.

Quando ele veio com a ideia de construir o motel, achei ok. Eu desocupada desde sempre, ele recém-demitido, 15 anos de empresa, era a crise. Tinha FGTS. Era a crise, mas se tem uma coisa que as pessoas continuam fazendo em qualquer crise é trepar. Se fosse motel barato, melhor ainda. Era uma puta ideia, sobretudo porque, além do FGTS, tinha um puta terreno que tinha ficado quase 20 anos em inventário e agora tava livre. Confusão do pai dele que comprou sem escritura, não vem ao caso.

O caso era o motel, uma ideia perfeita. É que não consigo lembrar como é que veio a sugestão. Eu não precisava fazer – tudo bem se não fizesse. Ele fechava a cara, mas não estava triste comigo, estava triste com a vida. Ele sempre tinha tido essa curiosidade, era um bom momento, mas tudo bem se fosse sem mim. Ok. Ele dava conta sozinho. Mas seria muito bom para a gente continuar se aproximando, a gente tava indo tão bem, era tão bom ter uma companheira pra dividir as loucuras com ele, era tão bom eu estar sempre ali.

Também não lembro como foi que eu concordei; era tudo muito sutil. Havia 21 quartos, fizemos buracos retangulares no teto deles, cada buraco medindo 15 por 35 centímetros. Depois cobrimos os buracos com persianas de alumínio. Pareciam grelhas de ventilação mas eram janelinhas. Quem estivesse no sótão podia deitar olhando pra baixo e ver os hóspedes lá nos quartos. Era só a gente subir e esperar. Eu já tinha ajudado na obra e não precisava ficar olhando, mas era bom. Porque aí.

Fui eu quem deu a ideia das persianas, sabe.

Às vezes a gente via juntos a mesma janelinha, olhando um pouco e trepando um pouco.

Às vezes olhávamos através de janelas diferentes, cada um na sua, e depois um adivinhava, trepando, o que o outro tinha visto.

Eu definitivamente não queria. Nessa altura, já era algo demais, sacrifício imenso. Me feria. E eu topava. Eu não entendia como tinha me tornado aquele par de olhos mandados e aquela buceta sem vida própria, uma boneca só que melhorada, porque quase de verdade.

Então teve o dia em que aconteceu  e que eu só consigo contar porque já estou assim, quase de mentira. O dia em que ele me deixou na janelinha 12 e saiu. Ainda não tinha ninguém transando no quarto, vi a Dulce terminar de arrumar a cama. Eram 21 quartos e só a Dulce de faxineira, o Cláudio na recepção e a gente assistindo trepada o dia inteiro. A Dulce não limpava muito direito, mas quem frequenta motel barato sabe disso. Tinha gente que levava álcool 70.

Saiu a Dulce, deu meia hora e ele entrou. Nem entendi, achei que tava louca. Vinha com uma moça nova, parecia nova, eu nunca tinha visto. Era ele? Era. A cicatriz no peito era a prova cabal. E ele olhava pra cima toda hora.

Aquilo era novo. O que ele ia querer com aquilo? O que a gente ia fazer com aquilo?

Não sei quanto tempo eles ficaram ali, eu nem sabia que ele conseguia ficar trepando tanto tempo. Depois acabou, a moça tava por cima dele, e quando fez menção de levantar, ele a puxou, envolveu num abraço e torceu o pescoço dela. Ela tava deitada em cima dele, não vi a cara que ela fez. Mas vi a dele, olhando não pra ela, mas pra persiana.

Eu gostaria de dizer que liguei na mesma hora pra polícia, que saí de lá, entrei no carro aos prantos e correndo e só parei na delegacia, mas na verdade eu só fiquei parada de boca aberta. Nem vi quando ele saiu do quarto. Senti uma mão no meu ombro, um beijo na minha boca e depois duas mãos no meu pescoço, na minha cabeça, depois um riso e uma voz: você não, sem você eu não vivo, vem cá, vem.

Eu já era cúmplice daquela merda toda, tinha três anos que olhava gente transando todo dia e eu não saberia explicar aquilo à polícia se tivesse tido coragem de ligar, mas mesmo se conseguisse explicar eu nunca ligaria, nunca teria coragem, e a próxima coisa que eu lembro é que ajudei a enfiar a moça num saco e levar pro carro, parecia que eu tava vendo CSI, cara, não parecia que era eu. Mas era.

E depois que ele jogou ela no rio eu pensei: fudeu, é isso, minha vida agora vai ser ver o Caio torcendo pescoço de mulher e depois ajudar a tacar gente morta no rio. Eu sabia que nunca falaria com a polícia, e ele também sabia. E sabia que não tinha nada na minha vida que não estivesse totalmente ligado, colado, grampeado nele. Eu tava fudida. Eu e elas.

Mas eu dei uma sorte do cacete. Fui comprar pão, na hora de pegar a carteira me deu um treco, apaguei. Não deu nem tempo de levar pro hospital. Nem cheguei a ver a cara dele quando me viu. E essa história acaba aqui, porque o que tinha de verdade nela eu já disse.

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2 comentários sobre “O marido

  1. Dante Gastaldoni 28/03/2017 / 16:03

    Ô Raquel, definitivamente eu não deveria passar longos períodos sem lê-la. Esse conto tá foda! Foda dos outros, mas tá foda igual. Algum romance em vista?

comentários

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