seis

Eu sempre pensei que, com o tempo, a dor fosse minguando. Não vai. Segue cheia. Muda um pouco, é verdade. Tanto que agora eu consigo escrever alguma coisa sobre ela.

Também segue cheia a ilusão da presença.

No início do ano eu pesquei no facebook um vídeo com algumas jogadas magistrais do Maradona. “Putz, preciso mandar pro meu pai”. A ideia me veio à cabeça mais rápido que o raciocínio, e o vazio que veio no próximo milissegundo foi um abismo.

Outro dia passei de ônibus com Clarice pelo Campo de Santana. Era dia de São Jorge. Ela quis descer. Entramos na igreja lotada e, enquanto nos esprememos seguindo o fluxo que levava ao altar, eu tentava explicar a ela minimamente o contexto. Finalmente paramos diante da enorme imagem do santo (Clarice gostou do cavalo) e minha ação automática foi a de repetir o que, havia anos, eu pedia mecanicamente toda vez que me encontrava em qualquer igreja diante de qualquer imagem de santo, mesmo não sendo religiosa: que meu pai ficasse bom. O abismo que veio no próximo milissegundo me engoliu pra depois me vomitar esmigalhada.

Tonteei, precisei sair dali muito rápido, me perdi, o choro exagerado foi inevitável e eu tentava buscar as palavras pra acalmar o susto da Clarice me sentindo ao mesmo tempo falsa pros outros, que deviam olhar a cena me achando uma tremenda devota.

*

Tem muito disso, nas coisas mais bobas.

Preciso perguntar pro meu pai se ele acha que o mecânico tá me enrolando, preciso perguntar pro meu pai como é mesmo que se faz aquela maracutaia pro chuveiro esquentar mais, preciso conseguir adaptar aquele bolo de banana, preciso contar que a luz da cozinha voltou a pifar, preciso pedir opinião sobre as prateleiras da sala, preciso ouvir junto aquela música, escolher presente de Natal, testar essa receita de chocotone, abraçar enfiando o nariz na gola da camisa dele, mostrar que eu tô dirigindo melhor, falar dos absurdos do golpe, contar que consegui emprego, contar.

*

Quando eu era pequena, achava meu pai o cara mais forte do mundo, porque ele me levava junto com uma amiga nos ombros, uma de cada lado. Depois continuei achando. Porque fui saber que ele quase tinha morrido ainda criança e que os médicos diziam ter sido milagre. E porque, muitos anos mais tarde, ele quase morreu de novo, depois de uma cirurgia por conta de um câncer sério, e não apenas não morreu como também se recuperou quase num piscar de olhos. E não apenas se recuperou como fez musculação, meditação, religião, viajou mil vezes com todos os meios de transporte – o câncer lá, agora parte dele, contido, mas presente, pra sempre. E porque depois, outros anos mais tarde, quase morreu de novo, numa demonstração de força do mesmo câncer, e dessa vez eu achava que não tinha jeito. Teve. E teve de novo a recuperação num piscar de olhos, e de novo as atividades que ele tirava uma força não sei de onde pra realizar.

Talvez a ilusão da presença constante venha daí. Não sei se já entendi o que aconteceu. Meu pai era o cara mais forte do mundo e, na minha cabeça, em algum momento se tornou o cara invencível. Eu não consigo ter a dimensão do que é conviver com um câncer que, você sabe, nunca vai sumir dali. Não consigo ter ideia do que deve ter sido levar na barriga um troço que a qualquer momento podia sair do controle de novo. Eu só consigo ter ideia do que foi pra mim conviver com a ameaça na barriga dele, e a verdade é que, pra mim, aquilo se tornou corriqueiro: ok, é um câncer, é perigoso, é horrível e vive com ele, mas não o atinge – meu pai vai morrer, mas de outra coisa.

Havia os sustos, mas havia as sortes. O remédio não tá fazendo efeito, mas tem outro surgindo. Ufa, foi por pouco. Num dos sustos eu chorei: tô com medo de o meu pai morrer e não ter tido neto. Engravidei na sequência. Ou já estava grávida, não sei, não sabia. Não engravidei por isso, mas era algo em que eu me pegava pensando. Foi bom. Uma das minhas maiores tristezas é saber que a memória da Clarice vai esvanecer. Quando eu vi que a morte talvez fosse inevitável, pedi pra deus, pros deuses, pro universo: deem só mais um ano para a gente, só até ela poder reter alguma lembrança. Não deram.

*

Mais ou menos na mesma época em que comecei a achar meu pai o cara mais forte do mundo, tivemos nossas primeiras conversas metafísicas. Quem fez o mundo? Existe Deus? Quem fez Deus? O que existia antes do mundo já era um mundo? Como pode surgir alguma coisa do nada? Como pode ser infinito o universo? O que é o infinito? Todo mundo morre? O que acontece quando se morre? Me lembro vagamente de a gente falar essas coisas antes de dormir, eu ´já deitada. Provavelmente foi assim que ganhei as primeiras noites insones da infância. Pensar nessas questões foi se tornando insuportável. Aí eu cansei do insuportável e decidi que não ia pensar nelas. Ou que pensaria nelas, mas sem me preocupar tanto, porque não fazia diferença. E instituí que: quando a pessoa morre, acontece com ela aquilo que ela acredita que vai acontecer. Ponto. E dormi.

Vou dormir.

Digitalizar0003

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Um comentário sobre “seis

  1. renata kling wersing 13/05/2016 / 13:21

    Lindo…perfeito…de arrepiar
    Passei tbm por varios momentos de vazio depois que meu pai faleceu.
    Hj já estamos 22 anos sem sua presença física.
    Deus sabe o que faz. Ele se foi com apenas 56 anos. Sem explicações.
    Ficou um grande vazio.
    Mas estamos fortes vivendo e cuidando da pessoas que nos rodeiam. Principalmente minha mãe querida.

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