tudo o que nasce é rebento

li em algum lugar ou ouvi alguém dizer que, antes de parir uma criança, a gente tem que parir os próprios medos. eu não pari os meus. e, apesar de toda a leitura e dos grupos de apoio que busquei durante a gravidez, apesar de dizer pra mim mesma todo dia que sim, meu corpo podia parir, no fundo (até no raso!) eu vivia cheia dos medos mais infundados.

não da dor do parto – essa não chegou a me assustar, apesar de eu ter ouvido a vida inteira que era a pior dor do mundo. eu tenho medo da dor de fazer tatuagem, de tomar injeção, mas… de parir? sempre achei que ter medo desse ato me parecia tão estranho quanto ter medo de comer, de fazer cocô ou de transar pela primeira vez. meus medos eram outros, e passei a gestação inteira com alguns deles: minha pressão ia subir, minha glicose ia aumentar, meu bebê ia ficar sentado, na hora h eu ia ficar tempo demais com bolsa rota e por aí afora. a verdade é que todos esses medos só faziam sentido porque representavam intercorrências que me deixariam de fora do lugar onde eu pretendia dar à luz meu bebê: a Casa de Parto de Realengo. [editado em 8/4: é claro que essas não são indicações para cesariana; se alguma dessas coisas acontecesse eu ainda poderia parir tranquilamente, mas não seria na CP, porque o protocolo deles não aceita]

eu sabia que ser acompanhada dor médico de plano de saúde era furada e que minha chance de ter um parto normal com algum era próxima de zero; mesmo antes de saber, a ideia nem me passou pela cabeça porque não sou muito fã de planos, que pagam mal aos profissionais, frequentemente atendem mal aos usuários e ainda por cima comem dinheiro público. pagar uma equipe particular era a forma mais garantida de ter um acompanhamento respeitoso (respeitoso pra mim e para a equipe), mas meu pé atrás com isso vem do fato de ser um modelo que, na prática, não tem como ser universalizado, o que me incomoda um pouco.

então descobri que no Rio havia duas instituições em que eu tinha grandes chances de proporcionar um nascimento digno pro meu bebê pelo SUS: a Casa de Parto e a Maternidade Maria Amélia. eu estava morando em Teresópolis e decidi que valia a pena passar um tempo no Rio, na casa da minha irmã, até o nascimento. é claro que parir com plantonista seria sempre uma questão de sorte e que, mesmo nos melhores lugares, poderia sair algo fora do esperado. mas é o modelo em que eu acredito. escolhi a Casa de Parto porque ela oferecia também o pré-natal, porque eu tenho um certo pavor de ambiente hospitalar e porque me pareceu que na CP as equipes seriam mais uniformes em suas condutas e minhas chances de cair num mau plantão eram menores. a Maria Amélia era minha opção caso uma intercorrência pintasse pelo caminho.

no início, a decisão causou certo tumulto com meus conhecidos. meus amigos se espantavam com o fato de eu querer ser acompanhada por equipe de enfermagem; outros achavam absurdo eu confiar no SUS; minha mãe veio me dizer, muito preocupada e emocionada, que não entendia por que eu estava fazendo uma escolha que não era a “normal”. depois de um tempo ficou tudo beleza, pelo menos com a minha família. minha mãe chegava a falar toda orgulhosa pros outros que a filha ia “ter parto normal, mas humanizado!”

bom, para minha alegria, a gravidez correu muito bem. eu não tive problemas em ser aceita pela CP e nada de errado aconteceu durante a gestação, embora eu tremesse de medo a cada exame realizado e embora perguntasse em toda consulta (mesmo com 40 semanas!) se meu bebê continuava mesmo cefálico (e ficou assim o tempo todo desde bem cedo).

a única intercorrência que eu não temia era passar de 41 semanas e 3 dias de gestação, que é o tempo limite pra parir lá. é claro que eu sabia que não era nada anormal, mas simplesmente não passou pela minha cabeça que pudesse acontecer comigo e não construí um bom plano B pra esse caso. minha DPP era 22 de janeiro, mas eu achava que o nascimento seria no máximo no dia 25, por aí (não havia nenhuma razão pra isso, não sei por que eu pensava assim). no bolão da minha família, ganhou o dia 14, acho que porque tanto eu como minha irmã nascemos com 38 semanas.

tive contrações de treinamento desde muito cedo e, quando completei 36 semanas, tive uma sessão tão intensa, longa e dolorida de pródromos (as contrações chegaram a ficar ritmadas por umas horas) que pensei que poderia entrar um trabalho de parto prematuramente. tinha essas sessões uma vez por semana ou mais e, com o tempo, elas deixaram de ser assustadoras. perdi tampão pela 1ª vez com 37 semanas e fiquei feliz, mas não deu em nada (acho que perdi mais umas cinco  vezes até o fim).

eu sabia que nada disso tinha relação muito direta com a data do parto, sabia que ainda poderia demorar muito (e por isso não comentava nada com quase ninguém, nem com a minha família), mas sempre são coisas que mexem com a gente, né? completei 40 semanas e bateu um frio na barriga. junto com ele, a ansiedade do povo ao redor. minha sogra chegou a me telefonar e perguntar quanto tempo eu esperaria antes de fazer cesariana; minha mãe ligava todo dia perguntando se eu já estava “passando mal”. fui ficando bem nervosa. ao mesmo tempo, os donos da casa onde íamos morar depois que o bebê nascesse pediram a casa de volta… que confusão, logo na reta final! ainda bem que pelo menos o Thiago, meu companheiro, ficou muito tranquilo o tempo todo.

quando estava com 40 semanas e 5 dias tive uma consulta de rotina na Casa de Parto e pirei, tive uma crise ridícula de choro com a enfermeira… eu soluçava, falando que não queria ter que ir pro hospital, que não ia dar tempo, que Thiago ia ter que ir embora pra Teresópolis e não ia ver o filho nascer (ele trabalha lá e, o pior, num regime de internato: passa uma semana direto isolado, sem nem telefone, num morro, a 11km de caminhada da estrada; havia conseguido ficar três semanas no Rio comigo, mas o tempo estava acabando). veio a Leila (diretora da CP) me acalentar, me deu um óleo pra fazer escalda pés, ficou um tempo conversando comigo, dizendo que ainda tinha tempo, que tudo podia acontecer muito rápido e que muitas mulheres pariam lá depois das 41 semanas… a consulta durou uma eternidade, e eu com vergonha por provocar aquela mobilização toda. depois a enfermeira me perguntou se podia fazer um toque (e, se o colo estivesse favorável, poderíamos tentar um descolamento de membranas). topei, desde que ela não me dissesse quanto eu tinha de dilatação. eu não queria ficar deprimida se não tivesse nada e, ao mesmo tempo, não queria criar expectativa se tivesse alguma coisa, já que podia ficar semanas estacionada em 4cm. eu morria de medo de toque e fiquei tensa, mas foi tranquilíssimo, a enfermeira foi super delicada e nem incômodo eu senti.

saí de lá mais animada, caminhamos, acho que fomos à praia de noite. senti cólicas a tarde toda, mas nada sério. no dia seguinte tinha passado tudo. no outro dia, 41 semanas completas e nova consulta. dessa vez não fiz escândalo, tentamos novo descolamento, novas cólicas e, de novo, nada demais. nesse dia me dei conta de que seria mesmo difícil parir na CP e de que, pior ainda, eu não sabia o que fazer nesse caso. sabia que o protocolo do SUS seria induzir, mas eu não tinha certeza se queria isso. nem sabia se a Maria Amélia me aceitaria fora de trabalho de parto, já que não era minha maternidade de referência. entrei no facebook pedindo conselhos pras  maníacas do parto (leia-se: pro povo da comunidade “cesárea? não, obrigada!”) sobre o que fazer, estruturei melhor meu plano B (marquei acupuntura pra estimular TP no dia seguinte, agendei consulta com obstetra humanizada pra quando estivesse com 41 semanas e 5 dias pra ter uma orientação melhor, conversei com uma doula e mantive firme a ideia da Maria Amélia).

depois meus pais apareceram lá em casa, foram pra dormir, fiquei mais nervosa, foi mais difícil ainda relaxar. meu pai olhava pra minha barriga e exclamava: “essa barriga não tá com o menor jeito de que vai começar trabalho de parto! pode crer, esse bebê não vai sair em menos de duas semanas!”, e eu ficava com tanta raiva, mas não falava nada pra não brigar. no dia seguinte perdi tampão de novo e na hora me deu uma emoção (“agora vai!”), mas depois desencanei (“tá, já vi esse filme antes”).

passou o tempo e nada.

sábado, 1º de fevereiro, 41s+3. eu tinha ido deitar na véspera com um pouquinho de cólica e contração. MUITO pouquinho e sem ritmo. nada, se comparado com os pródromos que eu vinha tendo desde as 36 semanas. acordei na mesma, tomei um banho e me arrumei para minha última consulta na Casa de Parto. naquele dia eu seria transferida e a imagem de a gente saindo da CP na ambulância para o hospital, sem nada acontecendo, me parecia bem ridícula.

na consulta, pedi que tentássemos novo descolamento (não na esperança de que ocorresse algo no mesmo dia, mas pensando em ir para a MMA em TP ativo um ou dois dias depois, sem precisar de indução medicamentosa). fizemos, e dessa vez eu quis saber a dilatação: 4cm (e Thiago me disse que na segunda e na quarta estava com três). a EO disse que eu passaria aquele dia lá e, mais tarde, voltariam a me examinar. dependendo do progresso, me transfeririam ou me manteriam na CP. eu achei aquilo meio absurdo porque sabia que não ia rolar nada, preferia que tivessem me mandado embora de uma vez pra eu assinar algum termo de responsabilidade abandonando o hospital e ir pra casa.

depois disso liguei pros meus pais pra dar parabéns pra minha mãe (era aniversário dela) e voltei a ficar triste/nervosa… caí na asneira de contar que estava na CP e que aquele era o último dia pra parir lá. meu pai: “então pode esquecer, que essa criança não tem a menor chance de nascer hoje!”. minha mãe, com voz trêmula de quem quer chorar: “mas minha filha, ninguém aí te deu uma explicação de por que o bebê não quer nascer? conta pra mim, eles não te disseram que você não tem passagem???” ai, meudeus. depois disso era eu chorando (“Thiago, eles não deviam falar assim comigo logo hoje, eu não devia ficar nervosa! agora eu tô mais nervosa porque sei que todo mundo tá nervoso!”) e Thiago me consolando, haha.

bom, fiz um escalda pés, passaram um óleo estimulante na minha barriga, fui dar uma caminhada com Thiago, e nada. voltamos para almoçar e decidimos fugir pra um motel depois, porque afinal a gente tava sem fazer nada e isso podia ajudar em algo, rs. mas não foi preciso fugir. depois do almoço, às 13h, a enfermeira veio examinar minhas contrações, verificou que continuavam tão fracas e pouco frequentes como antes e disse que não adiantava fazer o toque porque certamente não tinha mudado nada. disse que me examinaria de novo no fim da tarde e decidiríamos o que fazer. Thiago perdeu a vergonha e perguntou se não seria bom a gente transar. ela exclamou que era uma ótima ideia, que podíamos trancar a porta e ela ia pedir pra ninguém bater (“vou falar que vocês resolveram dar uma dormidinha”).

aí pronto. no meio da coisa começaram umas contrações bem fortes e a gente ficava rindo… quando tudo acabou, fui dar uma caminhada mas não consegui ir longe, porque elas vieram de vez e o povo na rua ficava me olhando com cara de susto. comecei a ver no relógio: estavam de 3 em 3 minutos, e foooortes! continuei sem dar muita bola – afinal, eu já havia tido tanta contração forte no último mês… achei que de repente não era nada. decidi voltar para a CP, fiquei perambulando pelo quarto e arredores enquanto Thiago marcava o tempo. às 16h a enfermeira voltou, constatou o ritmo e a intensidade das contrações e, conforme o combinado, fez novo toque pra definir minha situação na CP. estava entre 6 e 7cm.

todos ficaram muito empolgados, mas minha ficha não caiu. não me dei conta de que estava realmente em TP. falei:  “Thiago, é melhor ligar pra minha irmã e ver se ela quer vir pra cá. diz que não é pra criar expectativa, que pode ser que não dê em nada, mas que há uma chance de que nasça aqui”. depois descobri que ele ligou dizendo “Veronica, vem pra cá que teu sobrinho tá nascendo”, ela saiu com a roupa do corpo e chegou logo depois.

daí fui pra banheira e as coisas ficam meio confusas. nada do que for relatado daqui pra frente é muito exato… eu lembro que ficava com pena de o Thiago poder estar achando tudo meio chato e monótono e perguntei várias vezes se ele não preferia dar uma volta pra se distrair. lembro que fiquei com muita raiva uma hora que ele saiu do banheiro, ouvi uns barulhos e era ele que tava brincando de chutar a bola de pilates no quarto. chegou minha irmã, eu sempre achei que ficaria envergonhada com a presença dela mas, naquela altura, já não tava ligando muito.

aí de repente comecei a ter muita, muita vontade de fazer cocô, toda hora saía da banheira para a privada. eu tava careca de saber que vontade de cagar significava bebê a caminho, mas achei de verdade que no meu caso era um simples cocô e ninguém conseguia me convencer do contrário. lá pelas tantas eu desisti de ir para a privada (eu tava molhando o banheiro todo e isso me deu nervoso) e fiquei fazendo força na banheira, mesmo. aí de repente olhei pro lado e vi as enfermeiras se aproximando com uns panos, gazes e tesouras. e ouvi uma delas dizer baixinho: “que lindo, a bolsa ainda não rompeu, é capaz de nascer empelicado!”. pensei: cacete, eles estão achando que vai nascer! e foi nesse momento que percebi que estava em TP. foi também nesse momento, acho, que minha cabeça começou a atrapalhar o bom andamento das coisas. tudo tinha sido muito rápido até então: as contrações ritmadas começaram às 14h e isso era tipo umas seis da tarde.

perguntei se faltava muito. a enfermeira falou: “não sei, você me diga”. “eu?” coloquei a mão, senti a cabecinha com meu dedo. tava perto! mas mal sabia eu que ainda ia demorar um bocado. não sei o que houve. tava perto, perto, mas não descia mais. fiquei de saco cheio da banheira, fiquei com calor, com dor nas costas, não tinha mais posição. voltei pro quarto e tentei todas as posições possíveis, um kama sutra do parto. fiquei de quatro, deitada de lado, ajoelhada, em pé agarrada numas grades, acocorada. nada melhorava aquela chatíssima dor nas costas nem fazia o bebê descer.

e eu vinha sentindo sono desde que estava na banheira, o sono apertou. é incrível, eu imaginava que poderia sentir várias coisas durante o TP, mas nunca sono. e foi o que mais senti. eu só queria que tudo parasse por uns 15 minutos pra eu tirar um cochilo. enquanto estava na banheira eu consegui dar umas dormidinhas, mas poucas. numa delas o Thiago me acordou com um assovio: “fiiiiu, não pode dormir!” e eu tive vontade de socar a cara dele. claro que pode, cacete!

mas depois que fui pro quarto não rolou mais nenhuma soneca. e o bebê não nascia nem saia muito daquele lugar. aquilo foi me deixando agoniada e insegura de novo: quem sabe se eu não ia mesmo conseguir? fiquei triste, fiquei puta. tava tudo indo tão rápido! comecei a pensar um monte de coisas, na maluquice que tinha sido aquele dia, em como de manhã eu tava chateadíssima, com planos de hospital (e já me conformando em ter um terceiro colo no Ishtar!), e agora tava ali sentindo a cabeça do meu bebê na minha mão, tão pertinho. por que eu não conseguia?

comecei a gritar horrores nas contrações. não era de dor, não, era porque parecia que aquilo me ajudava de alguma maneira a tentar botar pra fora, sei lá. eu sou quietinha pra cacete, não grito na montanha russa nem em filme de terror, não grito de dor nem de prazer, nunca achei que ia gritar no parto, mas eu me esgoelei. e nada de bebê.

passaram mais óleo na minha barriga, não deu em nada. aí a enfermeira sugeriu o que eu temia: soro, só um pouquinho. nisso o expulsivo já passava de duas horas, mas eu sabia que não tinha problema. ou tinha? será que a CP transferia por expulsivo prolongado (que a essa altura tava longe de ser prolongado, na verdade)? por que diabos eu não me informei sobre isso antes? e por que não conseguia perguntar agora? eu pedi cinco minutinhos pra continuar tentando, os cinco minutinhos acho que viraram mais de uma hora, não sei direito. foi muito tempo. minhas contrações começaram a sumir. elas vinham fracas, mais espaçadas. eu sabia que estava tudo bem, mas me dava vontade de chorar. quando vinha uma eu gritava, gritava, fazia força, mas não rolava. comecei a fazer força o tempo todo, mesmo sem contração. eu sabia que tava fazendo merda, mas só queria que o bebê nascesse logo, tava morrendo de medo de me transferirem àquela altura.

e eu queria dormir. tentei explicar o porquê de eu não querer o soro. eu sabia que não era necessário. e se o bebê sentisse e sofresse? e se simplesmente continuasse sem nascer? estava tudo indo bem, apesar do tempo. eles iam ter que me transferir assim mesmo? se o bebê sentisse, ia ser cesárea na certa. se eles me transferissem naquela situação, ia ser soro  – mas no hospital, muito pior. eu tentei dizer tudo isso. pensei, formei as frases na minha cabeça e falei. ou achei que tinha falado: semanas depois, relatando o parto pra minha mãe, minha irmã disse que na realidade eu falei umas palavras desconexas e que todo mundo ficou olhando um pra cara do outro sem entender nada. fiquei chocada ao saber disso, rs.

bom, então a enfermeira disse que ela tinha certeza de que ia dar certo. nessa altura eu já tava completamente esgotada de sono. acho que o problema não foi o cansaço do dia… é que já tava há dias sem dormir, de preocupação. parece que o sono acumulado pintou todo de uma vez, sabe?

aí eu disse OK, mas meio chateada. veio o galãozinho e depois foi tudo meio rápido. pensei que as contrações iam ficar muito doloridas, mas não senti diferença nenhuma nisso, talvez não tenha nem dado tempo de eu perceber. acho que foi aí que a bolsa estourou (não lembro bem), mas eu nem senti, só ouvi alguém dizer e virei pra ver.  a próxima coisa de que me lembro é de sentir arder um pouco, olhei no espelho, vi a cabeça, botei a mão e senti os cabelinhos, ri e chorei um pouco. foi tão legal!

eu voltei a sentir vontade de fazer força (mas continuava fazendo fora das vontades, acho que alguém até me chamou a atenção por isso), empurrava, empurrava, mas comecei a achar que o bebê não ia sair nunca. uma hora olhei no espelho e pensei assim: agora esse cucuruto tá aí, essa cabeça no meio do caminho; eu não consigo mais botar pra fora e não tem como empurrar de volta pra fazer cesárea. onde eu fui me meter?

comecei a pensar, muito seriamente, que não ia conseguir, que a gente não ia sair nunca de lá e que todo mundo devia estar de saco cheio. não me lembro de ter dito isso em voz alta, mas depois minha irmã falou que eu comecei a choramingar assim: “eu não consiiiiiigo, eu não consiiiiigo… POR QUE É QUE TODO MUNDO CONSEGUE MENOS EEEEUUUUU?”

e também não me lembro da parte que veio depois, mas ela me contou que nessa hora me disse, meio puta: “como assim, não consegue? não conseguiu até aqui? no último dia do prazo da CP? para com isso! é claro que consegue, Raquel!” e foi na próxima contração que saiu a cabeça. eu me lembro de dizer que tava sentindo sair, que tinha saído! e que alguém me olhou e disse “sim, saiu!”

eu fiquei tão, tão feliz, mas me apavorei de novo e pensei que talvez não tivesse mais força pra fazer sair o corpo, porque minha energia tava no limite…  mas isso durou uma fração de segundos, fiz o maior forção (fora de contração, de novo…) e senti o resto do corpinho passar com muita facilidade, escorregando, e nem entendi nada, quando vi já estavam colocando o bebê na minha mão… a primeira coisa que senti foi o peso, antes de ver o rostinho. era pesado! e escorregadio, e cheiroso. eram 22h29.

aí olhei a cara, aquelas bochechas enormes, o rostinho roxo, meio cinza, e o cabeção de cone, que gracinha. o corpinho escorregando no meu colo, eu tava tão aliviada, aí senti mais um negócio escorregando, falei “ui” e todo mundo “mas jááá” e era a placenta. lembro que achei tão engraçada a saída da placenta, tive vontade de rir, mas não sei se ri, foi tão rápido que eu achei que ela tinha saído só metade e que tinha ficado faltando um pedaço (eu e minhas paranoias, até nessa hora!).

Thiago cortou o cordão umbilical e alguma enfermeira então falou que ninguém tinha se tocado de ver o sexo. nessa hora devem ter me achado maluca, porque eu falei “ah, vamos esperar mais um pouquinho…” mas não era porque eu não quisesse saber, era porque finalmente tínhamos encontrado uma posição em que o bebê tava seguro e sem escorregar da minha mão, eu não queria mexer nele naquele momento. enfim, logo depois vimos. era menina, era Clarice. ela achou meu peito em seguida, mas acho que não sugou pra valer nessa hora, ficou só dando um alôzinho.

a equipe foi embora, deixaram a gente namorando Clarice um tempo, acho que pouco mais de uma hora, mas passou muito rápido. depois voltaram pra pesar Clarice (3.675kg, apgar 9/10)  e me examinar.

[editado em 8/4: na verdade, enquanto pesavam Clarice (com Thiago) eu fui tomar um banho; quando saí, fui para a sala onde a enfermeira me examinou e já nesse momento me deram a Clarice de novo; ela ficou mamando um tempão e nunca mais saiu do nosso colo]

é engraçado. quando eu digo que não doeu tanto minha irmã olha torto pra mim. “Raquel, é só olhar as fotos. você berrava. você tava com cara de horror. é óbvio que doeu muito”. e talvez ela tenha razão, porque de fato é só olhar as fotos, e de fato eu berrava e, de fato, tava com cara de horror. mas a dor de que eu me lembro mais é aquela maldida dor nas costas, e a sensação de que me lembro mais é a do maldito sono. e do desespero de pensar que não ia conseguir parir.

acho que algum mecanismo hormonal deve ter agido sobre mim me fazendo esquecer ou mesmo não sentir direito a maior parte da dor. assim como eu não me lembro de vários fatos do dia – tipo isso de verbalizar que não ia conseguir. muitas coisas eu só sei que aconteceram pelo relato da minha irmã. ela disse que o Thiago vinha me fazer carinho e eu olhava puta pra ele, gritando “me solta, Thiago! me larga, me deixa sozinha!”, e eu não tenho lembrança absolutamente nenhuma disso. também não me lembro de ter falado feito uma bêbada. eu lembro que tinha dificuldade pra verbalizar os pensamentos, mas achava que tinha conseguido falar direitinho. mas não. parece que eu também chutei as pessoas em algum momento e morri de vergonha quando minha irmã me contou. aliás, ainda morro de vergonha quando penso nisso… acho que a dor deve ter entrado nesse rol de coisas que fiz e senti sem saber. e eu jurava que não tinha entrado na tal partolândia, já que me mantive tão racional o tempo todo…

bem, assim chegou Clarice. sentir cada momento dessa chegada foi muito, muito melhor do que eu imaginava. e escrever esse relato tá me dando uma saudade das sensações…

 

[se eu recomendaria a Casa de Parto? sem dúvidas, e sempre o faço. acho maravilhoso o trabalho de resistência que tem sido feito lá nos últimos dez anos e adoraria que pudessem surgir muitas outras como ela. é claro que sempre há coisas pra melhorar, e acredito também que algo tem sido feito nesse sentido.  eu me lembro de ter ouvido a Leila dizer, por exemplo, que no início ainda eram realizadas episiotomias com alguma frequência e que aos poucos isso foi mudando. outra enfermeira disse certa vez que ela própria fez epísio em um parto e o caso foi exaustivamente discutido numa reunião posterior. o fato de as condutas adotadas em cada parto serem debatidas com e pelas equipes é muito legal. minha ressalva pra quem escolhe a Casa é que se pense bem num excelente plano B (eu achava que tinha pensado) pra não ficar louca em cima da hora como eu.]

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18 comentários sobre “tudo o que nasce é rebento

  1. Paulo Cesar Gomes Gurgel 16/03/2014 / 22:18

    Parabéns filhota vocês venceram!!! Vocês deram um exemplo muito interessante. Você viveu intensamente a gestação e o parto e a Clarice é LINDA!!!

  2. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 16/03/2014 / 22:58

    Maravilhoso e verdadeiro o relato de Raquel Torres. Obrigada Casa de Parto de Realengo pela acolhida à minha filha e por trazerem ao mundo uma benção para nossa família, nossa netinha Clarice!!!! Que este relato lindo, com fotos emocionantes possa despertar em outras mães o desejo de ter seu filho “humanizado”. Que mais Casas de Parto, possam surgir, para que as mães possam desfrutar da liberdade (entre tantas) de abraçar o seu bebê antes mesmo de saber seu SEXO.

  3. Viviane 17/03/2014 / 09:44

    ai, Raquel! Não tem como não se emocionar lendo se relato! Lindo relato, linda mamãe e linda Clarice! Beijo grande.

  4. Alexandre Franco 17/03/2014 / 10:08

    Raquel!!! Que relato emocionante… Parei diversas vezes de ler pra ficar imaginando cada cena, sua ansiedade etc. Parabens por ter tido a coragem de se dar essa experiencia. Deve ter sido realmente lindo!

  5. Celina De Fatima Massi Pires 17/03/2014 / 13:28

    ahhh Raquel, me emocionei mas foi muitooooooooooooo lendo seu relato, fico super feliz pela sua coragem e determinação e um final super feliz, pois você realizou seu desejo trazendo a linda e saudável Clarice ao mundo. Torço que este parto humanizado(não tinha conhecimento disto) possa trazer muto bebês ao mundo e que outras futuras mamães se inspirem em você. E que a Casa de Parto de Realengo possa receber apoio de pessoas idôneas , pois somente assim valerá a pena pela energia boa que precisa ter. Beijos , felicidades para esta linda família que se formou, e parabéns também ao Thiago pela disponibilidade num momento mais que especial. Beijos

  6. Dante Gastaldoni 17/03/2014 / 13:32

    Que mistério tem Clarice pra guardar-se assim tão firme, no coração? A velha música do Caetano foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao ler este comovente testemunho e passear os olhos pelas belíssimas fotos que ilustram a chegada de seu rebento. Parabéns, Raquel, por você ser quem você é (tão serena, tão guerreira) e por ter conquistado o direito a uma família tão linda. Três beijos,

    • Raquel Torres 08/04/2014 / 12:35

      obrigada pelas lindas palavras, querido dante!
      sabe que o caetano foi uma das inspirações para o nome da clarice? a outra foi a lispector (que também é gurgel!)
      um beijo grandão.
      (ah, e as belíssimas fotos são da minha irmã ferinha ;) )

  7. Vanessa 17/03/2014 / 15:17

    Que lindeza, Quel! Muito emocionante…ri e chorei lendo… deu vontade de compartilhar seu relato! Saudades de vocês e quero conhecer Clarice logo ! beijos pra ti e Thiaguito!

  8. Bianca Fernandes ( EPSJV) 20/03/2014 / 13:24

    Nossa Raquel, muita linda sua história!!! Seja bem vinda Clarice!! Você já é uma vencedora deste mundo!!! Parabéns papai e mamãe, vocês agora tem um tesouro nas mãos, e não há preço que pague toda essa felicidade!!! Beijo grande

  9. Fernanda Monge 11/04/2014 / 11:40

    Parabéns Raquel! Seu relato é emocionante e com certeza inspirador! Parabéns pela família e pelo momento respeitoso pelo qual Clarice chegou! Quem dera todas as gestantes buscassem mais informações (e tivessem mais acesso) a atendimentos respeitosos como foi o seu! Bjs!

  10. Nathália 16/09/2014 / 18:29

    Raquel,
    Não digo apenas emocionante, mas como foi IMPORTANTE ler seu relato de parto. De alguma forma ele me acalentou… Também faço pré natal na Casa de Parto e assim como vc me maior medo é dar algo errado que me impeça de parir lá. O sonho de um parto humanizado escorrendo de mim, pois se não fosse a Casa não teria essa opção em nenhum outro lugar… Tenho plano de saúde e corri de vários médicos que fui. Cada passo para mim tem sido uma conquista, desde a entrevista com a Leila (pois também não sou da área de abrangência) até cada exame, cada consulta. Se as coisas não derem certo ainda não sei…. Se for em cima da hora já em TP vou pro Mariska mesmo (referencia da CP), mas se der algum problema durante a gestação vou ter que me conformar com o plano e encarar um cesarista. Mas, de verdade, quero acreditar que tudo vai dar certo e converso muito com meu bebê dizendo o quanto será maravilhoso esse encontro e que nós vamos conseguir. Na minha primeira consulta comentei esses medos com a enfermeira e ela disse que eu pensasse positivo, afinal eles tinham tido uma parturiente q chegou lá sem contrações, com 41+3 e que tudo deu certo… (acho que era vc!) Mais uma vez obrigada.. :) muita paz para vc e toda a família…

  11. Raquel Torres 16/09/2014 / 19:15

    Nathália, não sei se vc vai ler minha resposta, mas acabo de receber seu comentário e quero dizer que estou à disposição pra conversar, se vc quiser, ok?
    As chances de dar tudo certo na CP são muito grandes e lá é um lugar muito especial, mas há outras opções no rio sem ser o Mariska (em tempo – uma amiga pariu lá recentemente e gostou) caso você tenha algum problema durante a gestação. Se quiser, me manda email para raquel_tgur@yahoo.com.br ou me adiciona no facebook (raquel torres gurgel) para conversarmos melhor! Só te digo que não é preciso encarar os cesaristas do plano, tá?No Rio, pra parir, praticamente só basta querer :)

  12. Nathália 18/09/2014 / 01:07

    Oi, Raquel!.. Vou te adicionar no face.. :)

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