meio fera meio ferida

ele às vezes parecia uma coruja – sobretudo no início, quando, de susto ou de medo, tinha os olhos amarelos tão arregalados que quase se esbugalhavam –, às vezes uma galinha choca – sobretudo quando se deitava na palha com a cabeça meio que enfiada pelos ombros, escondendo o pescoço.

no dia em que chegou, estava mais para coruja. só a cara, porque o resto do corpo parecia mais o de não sei o quê desajeitado, uma das patas não funcionava direito e ele então perdia o equilíbrio, só ficava parado com o rabo lá pra cima e a cabeça quase no chão, coitado, parecia que plantando bananeira, mas não tinha a menor graça, dava um pouco de pena vê-lo assim tão completamente sem jeito. que talvez fosse filhote, que talvez tivesse sido criado em cativeiro, que talvez já tivessem judiado muito dele, era o que os homens que o trouxeram diziam.

lembro-me da primeira vez que o vi tentando voar: em menos de dez segundos, bateu numa árvore que estava no caminho e ficou preso nos galhos, daquele jeitinho dele, cabeça pra baixo, um pouco patético. na segunda vez, bateu de cara numa grade de pouco mais de um metro de altura e foi direto pro chão feito um desenho animado. também não teve graça.

logo depois, o Luiz começou a levá-lo pra zanzar todas as manhãs, bicho de estimação. os dois passavam o dia fora, um trabalhando, outro voando, aí no fim da tarde era um tal de procurar o bicho aqui e ali, porque a perna ia melhorando e o danado começou a gostar de ir cada vez mais longe. às vezes, quando ele ficava parado em cima de uma árvore, chegavam uns bem-te-vis pra dar umas bicadas, sacaneando mesmo, sabe? nunca tinha graça, imagina, onde já se viu, bem-te-vis tirando onda com um animal daquele porte.

ele era um gavião. ele ou ela – na verdade, nunca chegamos a saber. quando chegou, nem tive dúvidas de que era homem, mas depois eu já não sabia mais.

de repente aconteceu uma coisa incrível: a Aline se lembrou de um bloco de argila que aparecera no rio dias antes e, no meio do bloco, tinha um desenho perfeito, preto, que era certinho um gavião de asas abertas. e era um sinal para passar aquela argila na perna dele, todo mundo concordou e achou muito razoável, e não é que deu certo?, porque nos próximos dias o calombo que ele tinha desinchou um pouco e ele já se sustentava em pé sem plantar bananeira.

e fugiu na calada da noite e foi encontrado lá longe no dia seguinte, depois fugiu de novo e de novo e de novo e de vez em quando dava a nítida impressão de que agora tinha sido de vez, mas ele sempre aparecia, às vezes bem, às vezes ensopado porque tinha sumido no meio do temporal e ficado preso nalgum lugar, então finalmente a coisa começou a ter um pouco de graça, porque tudo bem que ele não era safo nem sabia se virar bem sozinho, mas aquilo não estava certo –  um gavião ganhando comida na boquinha dentro de casa com pinta de coitado. um gavião.

um dia ele escapou para a floresta grande. de vez.

foi encontrado uma ou duas manhãs mais tarde pelo Roberto, o corpo já sendo comido por um urubu, e aí me deu: uma tristeza meio feliz.

gaviao

*

(meu amigo André me disse que é bem-te-vis realmente vão em cima dos gaviões porque estes últimos costumam atacar ninhos. bonito.)

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Um comentário sobre “meio fera meio ferida

  1. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 22/01/2013 / 22:22

    Bonito foi tudo que li. Parabéns! E a foto? É do gavião encontrado lá?
    Bjs

comentários

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