aldeia velha, 28 de dezembro de 2012

eu gosto de cartas. quando era pequena, gostava de abrir a caixa do correio e ver aquela papelada dentro – inclusive um ou outro envelope com pinta de corrente, que minha mãe não queria abrir porque, se a gente lesse, ia ficar assustada com o conteúdo e ia acabar tendo que passar adiante sob a pena de morrermos no décimo dia –, gostava quando era natal e tínhamos um porta-cartas de tapeçaria feito especialmente por ela para a época, gostava quando chegavam os cartões com os mesmos dizeres de sempre – felicidade, prosperidade, adeus ano velho, era meio bobo, mas dava a sensação de que a gente era lembrado.

gostava de ter uma prima lá longe que me escrevia de vez em quando, eu escrevia de volta e guardo as cartinhas até hoje. gostei quando, mais tarde, mas ainda antes da internet, encontrei não me lembro como duas meninas com quem eu me correspondia – uma no Canadá, outra nos Estados Unidos, essa aí me parecia aqueles estereótipos de menina americana de filme, um dia até me mandou de presente uma bandeirola do país. foram pouquíssimas as correspondências trocadas, os assuntos eram escassos, mas deu pra eu me sentir um pouco gente. tinha todo aquele ritual: usar o papel fininho que pesava quase nada e custava mais barato pra enviar, começar com local e data no cabeçalho, escrever com letra caprichada e rasurando pouco, dobrar a mensagem de um jeito que ficasse bonito pra quem tirasse do envelope. essa era a parte, digamos, doméstica. aí tinha que ter tempo pra sair de casa e ir aos correios, o que podia fazer com que a carta fosse escrita num dia e enviada só uma semana depois, veja bem o quanto nossas ideias podiam ter mudado nesse meio tempo.

e aí tinha a parte mais legal, que era continuar com a mensagem na cabeça por um certo período, imaginar o outro recebendo o recado, aos poucos esquecer tudo e, um dia, quando já a lembrança se havia apagado quase por completo, receber a resposta sobre um assunto que, qual era, mesmo?

eu gostava de imaginar como, no futuro, ia tirar tempo na minha vida de mulher ocupada pra escrever a todo mundo e a caixa de correio da minha própria casa de adulta ia ficar cheia de carta também.

*

aí que na minha casa de adulta só chegava conta e, de vez em quando, alguma propaganda de quem vende grade pra janela ou pizza ou remédio pra matar inseto. chatão. já cheguei mesmo a fazer assinatura de revista, confesso que não só porque me agradavam as reportagens, mas também porque era bacana receber uma correspondência que era escrita efetivamente para que eu a lesse. bom, claro que não era o mesmo que uma cartinha feita à mão e dirigida a-mim-e-a-mais-ninguém, mas, verdade seja dita, era melhor que a taxa de luz.

preciso reconhecer que, se não tenho recebido muita correspondência, a verdade é que também não tenho feito minha parte de enviar nada. a gente praticamente nem tem mais o endereço um do outro, e não precisa, mesmo, porque com esse papo de email, podendo ser tudo tão rápido e sem gasto de papel nem caneta nem cola nem nada, e podendo-se escrever ali o sentimento daquela hora, sem risco de mudar de ideia antes que a mensagem seja entregue, poxa, não faz mesmo muito sentido ficar com romantismo de carta coisa nenhuma.

só que eu continuo gostando. sou assim, digamos, uma cartista-não-praticante.  acho que a última carta que enviei foi aquela ao saramago, você se lembra? porque sou chique pra cacete. e, também porque sou chique, acho que a última que recebi também foi dele, meses depois, levei até um susto e saí chorando.

mas aí hoje me deu vontade de te escrever longamente, no papel mesmo, com caneta, com ida aos correios, dobradura bonita, envelope lambuzado de cola (numa tarde dessas eu conheci um rapaz que me disse assim: que gostaria de pedir meu email, mas que o que ele queria mesmo era me enviar uma carta física, e não de internet, porque eu parecia alguém que gostaria mais de receber carta de verdade. aí pegou meu endereço, mesmo que no momento eu não esteja parando em nenhum. achei graça – eu já estava pensando em te escrever nesse dia).

escrever pra te dizer aquelas coisas cafonas de adeus ano velho e desejo que tenha um próspero ano novo, e também pra contar tudo o que aconteceu nesse ano que passou, falar do povo que conheci, observar que engraçadas são as coisas, como a gente vai se apegando a quem encontra pelo caminho quando o convívio é intenso.

queria falar que, apesar de tudo, esse rio de janeiro até que me faz certa falta, com o mar e com uma rotinazinha sem vergonha que, no fim das contas, acaba norteando um pouco a vida da gente. você talvez se surpreendesse quando eu te contasse que sinto até um pouco de falta de ser jornalista, é mole? não dos prazos, muito menos de escrever por obrigação, mas um pouco assim de acompanhar as coisas mais de perto, saber o que tá rolando, estudar, entrevistar gente interessante, ver quanta coisa está acontecendo e sendo pensada, discutida, entende? acho que entende.

então eu diria também que esse negócio de sair por aí começa a ficar um pouco assustador (__________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________). e nesse ponto talvez eu parasse e rabiscasse o parágrafo todo, porque o pensamento estaria demasiadamente confuso e, à distância, por carta, sem a entonação necessária, nem sempre é fácil se fazer entender, tem explicações que geram mais dúvidas ainda, imagina.

mas de repente então eu começaria outro parágrafo falando de como passagens de ano são um lance curioso, tanta promessa, tanta avaliação, não é? uma vez minha irmã me disse que é a pior época do ano pra se conseguir consulta psicológica, e eu entendo, porque tá todo mundo cansado do ano que passou e querendo encontrar respostas pros mesmos erros repetidos séculos a fio… mas você entende por que é que a gente cisma em fazer dessa época um tempo de passagem? eu não entendo, ao mesmo tempo em que não consigo deixar de cair na armadilha.

aí fico assim, reflexiva também. no meu caso específico, e no caso desse ano específico, não tem como não me aparecer a pergunta: e o próximo ano? você não sabe como eu já pensei, ainda na argentina, que essa viagem toda estava sendo uma loucura, que onde já se viu, eu, com quase trinta anos na cara, vivendo de ar, sem pouso fixo, todos os meus amigos adultos e encaminhados. teve uma época em que eu ficava dizendo a mim mesma que estava sendo parasita da sociedade, com esse termo mesmo, porque não produzia nada útil, etc etc, acredita? dramática e exagerada, eu sei.  às vezes ainda me pego nessa onda, mas aí deixo passar.

nesse momento, depois de escrever tudo isso, eu ainda teria um monte de coisas pra dizer, você nem imagina. então eu releria a carta, daria um suspiro cansado e decidiria que, caramba, seria preciso passar tudo isso a limpo.

mas pensaria também que carta passada a limpo não tem tanta graça, pelo menos não essa, não seria tão real quanto aquela escrita a jato. aí eu provavelmente leria outra vez mais os papéis, pensaria que você nem ninguém teria saco pra toda essa ladainha, encerraria as linhas, esqueceria a dobradura bonita do papel, o envelope, os correios e o seu endereço inventado, ó, meu querido destinatário fictício, e não enviaria nada.

e não envio.

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5 comentários sobre “aldeia velha, 28 de dezembro de 2012

  1. Veronica 09/01/2013 / 11:40

    Em primeiro lugar: o melhor do texto do blog. Em segundo: ainda tenho a graça de mandar e receber cartas uma vez por ano – que vão para e vem da finlândia, muitas vezes com presentinhos. E tem também os cartões postais – que enviei com certa frequencia quando morava em portugal, e que recebi de alguns amigos e familiares que conhecem esse meu fetiche. Não são cartas, mas com certeza têm um gostinho especial.

  2. Luiz Gustavo 09/01/2013 / 11:45

    Não escreveu nenhuma cartinha para sua irmã na Europa ? Eu mandei vááárias ! : D
    Um dia se você retomar um endereço fixo te escrevo… lindo texto !

  3. Bel Monsanto 09/01/2013 / 12:02

    Minha amiga, escrevendo lindamente como sempre. Tenho pensado em você! Saudades de conversar e de ter notícias suas. Pelo menos por aqui pude perceber que você está bem e feliz. Que continue assim e que em breve a gente se encontre. Beijos saudosos S2.

  4. Marcia Caminada 10/01/2013 / 11:38

    Como e bom ler um texto de quem sabe escrever! Parabens, Raquel e pense seriamente em escrever um livro com todas as experiencias que voce tem vivenciado em suas andancas pela vida. Bjs carinhosos.

  5. Paulo Cesar Gomes gurgel 11/01/2013 / 12:36

    Fala Raquel, que bom ler o que você escreve. (aproveito o seu pc para comentar porque do meu não consigo). Penso que o mundo está cada vez mais “acrílico”. Ontem estive vendo a notícia da feira de novidades eletrônicas nos USA e vi aquela gente toda se babando na frente daquela parafernalha: smartfone, notebook,tablet… Fiquei pensando: será que esse pessoal já parou para admirar um sapo?!?!?!? Garanto que tem muito mais conhecimento e sabedoria que aquelas jeringonças todas…

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