gênesis segundo maria das dor

minha avó se chama Maria das Dores. quase ninguém sabe disso, não. desde pequena ela é chamada de Lila, não sei bem o porquê, e aí até hoje todo mundo só a conhece como dona Lila, vó Lila, tia Lila. é engraçado, tem um pessoal cujo nome verdadeiro a gente praticamente morre sem saber qual é e sem se importar muito com isso. é o caso do irmão da vó Lila, o tio Zito. e também de uma tia do meu pai (ou tia-avó ou algo assim, porque tem certos parentes que ganham o título de tio a torto e a direito e a família é tão grande que eu nunca mais sei quem é irmão, primo ou tio de quem), a tia Calina. e, pra citar alguém mais contemporâneo, o Chopão, que foi meu namoradinho de colégio, mas aí já é outro papo.

o fato é que deve ser mesmo melhor ser Lila que ter Dores no nome, embora a questão da dor também não deixe de trazer em si alguma beleza. eu praticamente nunca me lembro do nome real da minha avó, a não ser quando conheço outra Maria das Dores. e aí simpatizo de imediato, porque o encontro me traz a lembrança da Lila.

mas a história que eu quero contar hoje não tem nada a ver com a minha vó, não. tem a ver justamente com uma outra Maria das Dores, que conheci numa outra viagem, e que, além do nome real, tem algo mais em comum com a Lila: esse conjunto de atributos que toda vovó de responsa deve possuir, composto por sorriso gostoso, fala mansa, pelanquinha debaixo do sovaco, cabelos acinzentados, quintal cheio de criança, televisão ligada em programa de auditório e cheiro de feijão fresquinho se espalhando pela casa.

eu a encontrei sem querer. quando cheguei a Petrolina, tinha colocado na cabeça, sabe-se lá por qual razão, que precisava dar um passeio na Ilha do Massangano. ignorava o que havia por lá, mas tinha ouvido o nome e achava muito bonito, difícil de guardar porque parecia várias outras coisas – eu dizia Mansagano, Massagardo, Massagando. encafifei (aliás, é mais ou menos comum eu encafifar com nomes. outro dia vi pra vender uma cachaça produzida numa cidade mineira chamada Saudade, pode, isso? é claro que preciso conhecer). aí perguntava pra todo mundo na cidade como é que fazia pra chegar tal ilha, e o povo me olhava com olhos muito estranhos, indagava que diabos eu queria com aquele lugar e dizia que lá não tinha nada de interessante pra fazer, que não morava quase ninguém, que o banho de rio era ruim e que, por fim, não sabia me indicar qual era o caminho.

custou, mas, depois de acho que uma tarde inteira pesquisando aqui e ali, uma hora eu entendi mais ou menos como chegar e, na manhã seguinte, parti finalmente para a Ilha do Massangano. atravessei o rio toda feliz mas, mal desci em terra firme, me perguntei se meus companheiros petrolinenses não estariam com razão. o lugarejo até era simpático, mas não havia uma viva alma pelas ruas, o rio realmente parecia meio forte demais para nadar e, em cerca de meia hora, eu já havia dado duas voltas pela ilha inteira sem encontrar o que fazer.

quando já estava pensando num jeito de chamar o barqueiro de volta (não fazia então a menor ideia de onde ele havia se metido), vi um cara saindo de uma das casinhas. arrisquei um “bom dia” e, assim que ele me viu, fui logo atacando: “escuta, eu tava querendo conhecer um pouco a história aqui da ilha, você não sabe de alguém que pudesse me contar, não?”

nem sei por que disse isso, mas me saiu assim, uma mentirazinha meio natural da qual logo me arrependi, me sentindo bem idiota. porém, no meio do arrependimento, ouvi a voz do rapaz me dizer que sim, que eu podia falar com a dona Das Dor, que a casa dela era aquela ali do lado, podia ir entrando que ela não fechava a porta, só tinha que saber se ela tava em casa, e foi escancarando a porta e entrando e dizendo que tinha uma moça ali querendo falar com a Das Dor e, de repente, me vi na soleira olhando pra dentro da sala, aquela velhinha simpática toda a vida me mirando e dizendo entra, minha filha, senta um bocado.

quando me virei para agradecer ao rapaz, ele já tinha evaporado e então, meio sem jeito, obedeci e me sentei.

Das Dor me chamava inexplicavelmente de senhora, falava dos filhos e dos netos, pedia que as crianças me levassem para nadar, punha discos pra eu ouvir, me levava na casa da vizinha, me mandava conhecer a comadre Amélia, que morava no outro lado da ilha, e me servia o maior prato de almoço do mundo, com arroz feijão farofa batata salada aipim além de galinha E peixe, porque havia começado a quaresma, ninguém mais podia comer carne e era preciso que se acabasse com a que sobrara,mas, também,se eu não aguentasse tudo não tinha problema, que ia para a porquinha Juliana.

uma hora, como seria inevitável, ela começou a discorrer sobre as transformações do Rio São Francisco, que passava imenso quase ali na porta. disse que estava tudo muito diferente, que alguns peixes já não havia, que nem cheia e vazante eles tinham mais direito, e que inclusive às vezes parecia que a gente estava vivendo de novo na época do Noel, se eu conhecia a história da barquinha do Noel,

– barquinha do Noel?

– da bíblia, né, minha filha.

– conheço mais ou menos, mas não sei se me lembro direito.

então ela contou. contou que um dia o mundo andava de mal a pior e deus planejou uma chuva imensa pra acabar com quase tudo todo, mas decidiu encarregar Noel – que era bom e justo – de salvar só sua família junto com os animais e, pra isso, mandou que ele construísse uma barca bem grande e enfiasse aquela galera toda pra dentro.

o cara trabalhou que trabalhou, noite e dia. os vizinhos passavam e caçoavam dele. “Noel, vamos pro forró, Noel!” e ele fazia que nem ouvia. “que é isso, Noel, endoidou? que chuva é essa que cê diz que vem, não tá vendo o sol?”, e Noel continuava o serviço.

quando a barquinha estava pronta, colocou toda a família dentro dela e, em seguida, exemplares machos e fêmeas de tudo quanto era bicho que havia: bode, porco, galinha, urubu.

até que o céu ficou cinzento, caíram os primeiros pingos grossos e começou uma chuva que parecia não acabar nunca mais. em pouco tempo, tudo foi ficando alagado, a água subia pelas paredes das casas, a chuva cobriu até os tetos e todo mundo começou a se afogar.

só a barquinha do Noel estava em paz, boiando na maior calma. e aqueles mesmos vizinhos que caçoaram dele vieram, nadando aos trancos e barrancos, pedir uma ajudinha. “ó, Noel, me arruma uma vaguinha aí, me vende uma passagem!” o Noel, que não era bobo nem nada, respondia: “vendo nada, tem lugar não! vocês ficaram aí dizendo que eu tava doido, chamando pra forró, agora vão é se afogar!”

o tempo passou, o mundo alagou, quem estava fora da barca morreu. então a chuva foi estiando, estiando, parou. a barquinha, é claro, continuou à deriva, porque a água ainda estava alta. até que de repente a barca bateu numa pedra e, enfim, atracou na Serra do Araripe,

– peraí, Das Dor, na Serra do Araripe?

– é, a Serra do Araripe, no Ceará, que é o lugar mais alto do mundo… a senhora conhece?

– ainda não.

– eu também não, mas minha mãe conheceu, quando estava grávida de mim. é muito bonito e, a senhora sabe, ainda tem lá as ruínas da barquinha.

– Das Dor, essas ruínas ainda existem no Ceará?

a senhorinha deu uma repensada e me olhou com ares de dúvida.

– olha, na verdade eu não sei bem… acho que é capaz de não, porque agora já faz muitos anos.eu já vou pelos setenta e, quando minha mãe foi lá, estava grávida de mim, então, imagina.

e completou, reticente e algo esperançosa:

– mas nunca se sabe, não é? essas coisas de deus costumam durar tanto tempo, que, talvez…

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4 comentários sobre “gênesis segundo maria das dor

  1. Celina Massi 12/12/2012 / 01:15

    Muito bom, a gente viaja lendo as hisorias, muito bom…. beijos

  2. Celina Massi 12/12/2012 / 01:16

    Muito bom, a gente viaja lendo as historias, muito bom…. beijos

  3. Thiago Virgilio 17/01/2013 / 19:25

    Que mágico!!

    =D

comentários

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