mais de cem gramas de centeio

quando penso em romances policiais, a figura que me vem a mente não é a de nenhum Sherlock Holmes, mas, vejam só, a do Mário Quintana. posso visualizá-lo com muita clareza quando ele, com olhos bondosos de bicho de estimação, pele branquinha de tecido pregueado e voz de avô universal, diz que lê novelas policiais pra tapear a insônia e porque já passou da idade de ler coisas sérias.

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imaginem que graciosa seria uma conversa entre ele e a Miss Marple, da Agatha Christie – um encontro entre dois dos velhinhos mais adoráveis do planeta! os dois comendo bolinhos doces de massa fofa, biscoitos amanteigados e pãezinhos de mel acompanhados por café com leite ou chá ou suco de laranja, Miss Marple comentando desinteressadamente com Mr Quintana algum caso curioso que ela ajudara a desvendar, Mário ouvindo sem muita atenção e transformando a história num poeminho saboroso.

romances policiais povoaram uma boa parte da minha infância/adolescência, mas andaram sumidos desde então, porque chega uma hora em que é preciso se tornar mais grave. recentemente, minha irmã me conseguiu um monte deles digitalizados e, uma noite dessas, quando decidi que precisava ler algo leve, havia pelo menos uns trinta assassinatos misteriosos me aguardando. escolhi um… e aí, camaradas, foi uma loucura: não consegui mais parar. meio ridículo, eu sei.

quem me fisgou foi justo a Agatha. os bigodes bem cuidados do reacionário Hercule Poirot e as bochechas rosadas de Miss Marple (chego a sentir um cheirinho de pó-de-arroz com rouge quando leio seu nome) me transportaram de imediato para meus onze ou doze anos e, noite após noite, quase com a mesma excitação daquele tempo, me deleitei com revólveres, punhais, armadilhas, cianuretos, grandes heranças e planos mirabolantes.

uma das terríveis mortes foi a do bilionário (é claro) Rex Fortescue, envenenado no café-da-manhã. o livro era “cem gramas de centeio” e o caso tinha alguns detalhes que pareciam não fazer sentido algum (é claro). um deles era o fato de o morto carregar no paletó um punhado do cereal do título. Miss Marple, que não era boba nem nada, decifrou esse pormenor em dois tempos (é claro), mas, antes disso, todo o mundo estava intrigado. lá pelas tantas, o sargento Hay virou e disse:

– parece também que ninguém sabe nada a respeito do cereal que ele tinha no bolso… simplesmente não entendem. eu tampouco. ele não dava a impressão de ser um desses fanáticos da nutrição que comem qualquer coisa, desde que não seja cozida. o marido da minha irmã é assim. cenouras, ervilhas, nabos, tem que ser tudo cru. mas nem mesmo ele é capaz de comer grãos crus. sim, porque devem inchar no estômago de uma maneira horrível.

tive que rir baixinho quando li esse trecho. ora, Hay, assim o senhor me ofende! é verdade que, em outros momentos de outros livros, a Agatha dá uma leve sacaneada nos vegetarianos em geral – assim como nos espíritas, nos comunistas e em mais uma galera – mas dessa vez o lance foi mais divertido porque alfinetou justamente o que tem sido o meu regime alimentar desde que cheguei a aldeia velha!

só que, ao contrário do que pensam o sargento Hay e até o seu cunhado, grãos crus não incham na barriga coisa nenhuma e ainda por cima são gostosos pra cacete. o centeio, então… ô! (o segredo, jovem Hay, é comer germinado: fica macio e incha, sim, mas na água, bem antes de chegar ao estômago).

eu conhecia a alimentação viva desde o ano passado e fazia em casa uma ou outra coisinha, como o tal do suco verde. acho, inclusive, que esse suco fez uma diferença danada na minha vida. qualquer um que me conheça um pouco sabe que, até não muito tempo atrás, eu comia tão mal a ponto de meus colegas de trabalho dizerem que minha marmita parecia uma atração turística – tanto pela pouca quantidade de comida quanto pela sua inacreditável insuficiência nutricional. aí, de repente, começa a me dar água na boca olhando pra salada? estranho, muito estranho.

e agora estou morando aqui, onde o esquema é esse mesmo, Hay: cenouras, nabos e mais uma porção de coisas, tudo cru. o pobre sargento nem de longe imagina os risotos, pães, tortas, ricotas, lasanhas, farofas, pizzas, sopas e doces possíveis.

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eu também não imaginava.

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3 comentários sobre “mais de cem gramas de centeio

  1. Veronica Gurgel 03/12/2012 / 16:41

    Bem, todo mundo sabe que os personagens que investigam misterios não levam a vida mais saudável: o sherlock era viciado em heroina, se nao me engano. Claro que eles não iam sacar de alimentação viva haha. Mas achei curioso que a Agatha mencione isso no livro, e tanto tempo atrás!

  2. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 03/12/2012 / 23:56

    Quel, me passe esta receita linda de morrer! Me deu água na boca.
    Beijos

  3. Aline Chaves 04/12/2012 / 16:13

    Viva! É a torta comemorativa do aniversário da Raquel!!!!!!! Isso ela não fala rsrsr Com direito à super velinha de aniversário: uma fogueirinha de 3 dias de duração…

comentários

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