só umas palavrinhas sobre o cerrado

há, entre mim e ele, uma relação que eu ainda não consegui compreender adequadamente. nasci na mata atlântica – ou, bem, no que resta dela – e não viajei muito pelo cerrado, não. apesar disso, sempre me senti muito familiar a esse sistema, como se fôssemos algo como primos distantes ou namorados virtuais.

de onde vem esta simpatia, que chega a criar laços?de onde o encanto? ó, é difícil. decerto não vem pela beleza das cachoeiras ou das tão cantadas flores, nem pelo amor à suculência das frutas, muito embora eu seja bem gulosinha. tudo isso é maravilhoso, sem dúvidas, mas o que eu gosto mesmo é… como dizer? para mim, o cerrado parece um grande poema.

piegas, não? pode ser. pode ser também que essa minha sensação venha do fato de eu adorar a forma como o cerrado aparece na boa literatura, vai saber. mas, seja lá como for, acompanhem o meu pensamento enquanto eu própria busco organizá-lo, e vejamos onde conseguimos chegar.

para começar, o cerrado é feito de extremos – períodos de seca absoluta e tempos de chuvas alucinantes se intercalam de maneira harmoniosa, como se o seu equilíbrio residisse justamente no exagero.

depois, dividindo o espaço com enormes extensões de pasto e monocultivo, improváveis florestas densas se erguem, com árvores gigantes, vistosas e de todas as cores, compondo um cenário tão distinto do que imaginamos usualmente.

enquanto isso, espalhadas pelos campos quase pelados, árvores anãs sobrevivem com seus galhos retorcidos apontando confusamente em todas as direções. alguém que me ensinou que o que vemos delas não é quase nada: uma grande parte do seu corpo são raízes, completamente ocultas. quando, durante as queimadas tão frequentes, o fogo lambe tudo, elas não morrem: o que estava escondido sob a terra volta a crescer com força algum tempo mais tarde e a aparente fragilidade se transforma numa ressurreição em massa. muito, muito bonito.

há também aqueles troncos de árvores defendidos por espinhos de todos os tamanhos que permitem apenas o toque muito cuidadoso e suave, e, apesar disso, é impossível não querer tocá-los.

e tem os buritis… os fascinantes e imponentes buritis, que pairam altos sobre todas as coisas, indicando e vigiando o caminho das águas, como guardas gigantes…

 o senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. alguém esquece isso? o vento é verde. aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo.

falando sério, isso tudo não lhes parece extraordinariamente humano?

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2 comentários sobre “só umas palavrinhas sobre o cerrado

  1. Veronica Gurgel 03/12/2012 / 16:42

    Acho que as paisagens, assim como certos autores, dão uma sensação de “estar em casa”, mesmo quando a nossa casa está muito longe. Às vezes é o cerrado, às vezes é uma noite com neve.

  2. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 04/12/2012 / 00:01

    O que li foi tão bonito, as fotos que vi tão emocionantes. “Tudo extraordinariamente humano”!

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