piri, mimi, merci

o pancadão não é muito a minha praia, mas eu sou do Rio. isso significa que sei muito bem que batida é essa que na balada é sensação, conheço a diferença entre o charme e o funk, às vezes subo no palco ao som do tamborzão e compreendo perfeitamente que um lance é apenas um lance. sei também que tem gente que sai por aí não pra dar, mas pra distribuir, tanto faz com red label ou ice. daquele jeito, né? solteira sim, sozinha nunca! se tem amor a Jesus Cristo… demorô!

o que eu jamais imaginei é que haveria nesse mundo um mc de sotaque caipira a cantarolar versinhos mais ou menos assim: “ganhei na loteria e fui morar na capital, ééééé, eu to bonito hein muiezada, com dinheiro no bolso e caminhoneta importada, éééeé, eu to bonito hein muiezada”.

pois é, um funk rural! e há outros! eu morreria sem ouvi-los se não fosse pelos conhecimentos musicais de Titouan, em Pirenópolis. “moça, vou falar um negócio procê: isso aqui é bão, moça, mas é muito bão!”.  o sotaque do rapazinho de 13 anos contrasta, e muito, com a fala afrancesada de Mimi, sua mãe – aliás, às vezes nem ela entende direito o que o menino diz. é que Titouan não é um franco-brasileiro como outro qualquer.  como ele próprio se intitula, ele é franco-goiano.

junte-se aos dois a doce, perspicaz e firme Tamara (ou Tamarrá, em frrrrancé) e aí está a família que me acolheu em Piri.

aliás, a Tamara é outra figurinha que talvez merecesse um texto à parte. “aquele gato era realmente esplêndido”. esplêndido! taí o tipo de coisa que ela diz sempre – acho que nunca ouvi esta palavra dita por outra pessoa de 11 anos. o bicho só pega quando os dois irmãos resolvem se estranhar, e aí, sai da frente que a chapa é quente.

a Mimi… bem, Mimi nasceu no sul da França e sempre entendeu de roça porque, se não me falha a memória, seus avós eram pequenos produtores rurais. ela diz que, desde bem nova, antes mesmo de saber direito o que é que tinha no Brasil, botou na cabeça que queria morar aqui. dito e feito: depois de se tornar cozinheira e pilota de avião (!) na França, veio parar em solo nosso. morou algum tempo na Bahia e, finalmente, estacionou em Piri, onde vive com os filhos há uns 12 anos.

comprou uma terra totalmente degradada por pasto e coberta por capim, foi plantando umas coisas, deixando outras brotarem sozinhas e, hoje, o lugar é o que é: o sítio Galeria tem um florestão com jatobá, angico, jussara, jabuticaba, manga, ipê, pitanga, tamarindo, abacate, caju, jambo, urucum, mogno e mais, muito mais.

não é mole. essa matuta francesa é possivelmente uma das pessoas mais fortes que eu já conheci. segura sozinha as contas da casa, pega trabalhos na cidade, aparta briga de criança toda hora e cuida daquele espaço gigante sem funcionários, só com a ajuda dos filhos e de quem chega lá para colaborar. é coisa pra cacete! tem que capinar, roçar, abrir canteiro, carregar terra, carregar pedra, plantar, colher, fazer tinta, pintar casa, construir, montar irrigação, cozinhar, lavar, limpar, consertar… ufa.

foi um grande prazer viver por lá. as horas de trabalheira intensa eram intercaladas com muitas conversas sobre as plantas e os bichos locais e sobre política, culinária, educação, passado e futuro, e o calorão do início da seca era atenuado por providenciais banhos de bica. os almoços incluíam muito ratatouille e œuf à la coque, além de um gratin de sei lá o quê de comer rezando (très chic, meu bem).

as noitadas eram longos carteados – até não mais que umas nove da noite, é claro – com a Tamara (“só mais uma partidinha?”) e várias outras horas livres eram compartilhadas com os muitos amigos da família (até casamento teve!).

para acompanhar tudo isso, o celular do Titouan nos brindava não apenas com funks altamente eróticos como também com música sertaneja romântica da mais duvidosa qualidade. o volume da cantoria, como não poderia deixar de ser, era inversamente proporcional ao tamanho da nossa paciência para ouvi-la.

e, como as lembranças de Piri me vêm todas com fundo musical, aproveito para encerrar este relato com mais uma canção – desta vez, das românticas – que aprendi por lá.

é pra cabá com os pequi do Goiás
é pra roê todo o queijo de Minas
é pra bebê todas pinga do Brasil
a paixão que eu sinto nessa menina

essa paixão é quente, PARECE ATÉ CUIABÁ
tô faceiro igual criança que tá conhecendo o mar
tô feliz de mais da conta, agora o peito desconta as dores que já sofreu
É FOGO NA GASOLINA, O AMOR DESSA MENINA EM MIM BATEU E VALEU!

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4 comentários sobre “piri, mimi, merci

  1. Nath 16/11/2012 / 15:29

    Amei!! Q delicia de viagem… Agora vc e funk definitivamente nao combinam!!

  2. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 21/11/2012 / 23:47

    Raquel, que vontade de arrumar “as trouxas” e partir para casa da Mimi. Que vontade de dar uma ajudinha na terra, na cozinha, no quintal sei lá, o que precisar… O que eu queria mesmo é estar com esta pessoa maravilhosa que sabe o que quer, que batalha, trabalha, valoriza a vida, sabe viver e que você foi privilegiada por conhecer!

  3. murielle dargaud 22/11/2012 / 16:21

    até que enfim estamos conseguindo ler suas maravilhosas escritas Raquel, e risos, risos e mais risos.mas isso aí a vida é belíssima, melhor ainda encontrando pessoas genias igual você. Volta quando quiser…bjs grandes

  4. gaferraz 23/11/2012 / 03:26

    rá, li dois textos e estou adorando. admiro muito você e sinto saudades! beijos, gá.

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