“o pão da Beth” ou “como fui recebida em Goiás”

“você é a Raquel, então? eu sei, a menina do Rio… já me falaram de você”. no princípio, confesso que fiquei um pouco surpresa com a fala do rapaz, mas, pensando bem, até que era mais ou menos natural.

eu havia chegado a Pirenópolis apenas dois dias antes e já acenava para alguns conhecidos na rua. em realidade, num lugar como Piri, conseguir isso não é tarefa das mais difíceis. basta ir à feira, tomar um café no armazém e dar uma volta pelo centro e já está: fatalmente, as carinhas começam a se repetir e você se sente um pouco local.

no entanto, uma coisa é reconhecer as carinhas; outra, bem distinta, é de fato falar com elas. no meu caso, considerando-se a patente timidez que me é constitutiva, dir-se-ia que a simples distribuição de tchauzinhos por minha parte era quase um milagre – apenas alcançado, creio eu, graças à enorme popularidade da Beth dos Pães, que vivia e trabalhava no lugar onde acampei durante minhas primeiras noites na cidade.

como eu disse, é fácil ser popular em Piri. só que eu ainda não sabia disso quando cheguei e, então, a Beth me pareceu assim, a mais das mais, sabem como?

montei acampamento por ali, à beira-rio, porque parecia um lugar tranquilo e porque tudo o que eu queria era curtir uma gostosa solidão antes de começar a trabalhar de novo. e, assim que coloquei meus pés dentro daquela água, tive a certeza de que Piri me receberia muito bem.

eu dizia que estava em busca de tranquilidade e solidão. a primeira estava presente, mas a segunda passou longe. não demorou muito para eu perceber que, aparentemente, toda a cidade se reunia para conversar, lanchar, almoçar, tomar umas cervejas e fumar uns baseados na Beth, que servia, conversava, lanchava, almoçava, bebia e fumava junto.

(mais tarde, eu me daria conta de que nem toda a cidade ia à Beth. Pirenópolis tem vários pequeníssimos círculos sociais – tribos, se preferirem –, mas todos com um ou muitos pontos de comunicação entre si, um pouco como as redes virtuais. bom, naquele momento, minha impressão era a de que a tribo era única e que se encontrava inteira ao redor do simples restaurante).

aqueles momentos com um mundaréu de gente me fizeram um certo bem. quando vi, já estava até convidada para a degustação do novo cardápio de um barzinho próximo – evento mui restrito a um petit comité, é mole?

fora que a Beth realmente merecia a alcunha por que era conhecida. meu deus, que pão! ainda por cima, cheio de ingredientes locais! quando cheguei, por algum motivo estranho, eu não estava a fim de comer nada sólido, e ela me preparava, a precinhos camaradas, sucos com tudo o que era legume. eu não sabia o que estava perdendo. houvesse conhecido então o incrível pão integral de cenoura da Beth que conheceria depois, seguramente teria recuperado a fome rapidinho e duvido que quisesse saber de outra coisa.

foi ali no restaurante, ao som do rio e da rabeca do Mestre Ambrósio e debaixo de um céu sempre azul, que a Beth me falou um pouco da sua história.

disse que chegara a Pirenópolis nas primeiras levas de hippies que pintaram por lá mas que, infelizmente, havia logo sido “expulsa” da cidade (“era tudo naquela base de sexo, drogas e rock´n´roll, né? não agradava. fizeram abaixo-assinado e tudo para eu sair!”). contou que, então, havia morado em Goiânia por duas décadas (“sempre com o pão me sustentando: com o pão criei minhas duas filhas e ainda banco quase tudo delas sozinha”) e retornado apenas pouco tempo atrás (“hoje, todas aquelas velhotas conservadoras do abaixo-assinado me cumprimentam”).

disse ainda que também já tinha viajado muito de carona pelo Brasil (“mas nunca transei com nenhum homem que me deu carona! só com um, aliás: o primeiro e único motorista pra quem eu dei foi um inglês que acabou virando meu marido e pai das minhas filhas”) e que, agora, não queria saber de outra coisa que não fosse trabalhar e descansar na pequena Piri.

foi uma excelente acolhida.

nas rodas de conversa com o povo que aparecia, geralmente eu só ficava espreitando – copinho de cenoura e beterraba em mãos, careta toda a vida! – as prosas da mulherada sobre homens e da homenzarrada sobre mulheres. mas, eventualmente, o papo se voltava para mim: quem eu era, de onde vinha, o que fazia ali e coisa e tal. “vim trabalhar com agrofloresta no sítio da Murielle, conhecem?”

Murielle? silêncio e testas franzidas – ninguém sabia quem era. devia ser um absurdo, mas tudo indicava que, naquele ovo que era Piri, minha futura anfitriã permanecia misteriosamente desconhecida.

havia mil tentativas de explicação.  a mais recorrente era que Murielle poderia ser alguém que morava no IPEC, mas eu sabia que isso não era verdade. até que, num almoço, após não sei que pista minha, alguém foi iluminado. “será que essa Murielle não é a Mimi?”

era. e, a Mimi, todo mundo conhecia, a começar pela Beth. Mimi era uma francesa baixinha assim, muito engraçadinha, muito bonitinha, muito gente fina, e tinha um filho lindo, ué, na verdade acho que são dois, não, gente, tenho certeza de que a Mimi tem uns três ou quatro no mínimo, é uma penca!

não importava muito. agora eu sabia que era a Mimi – francesa, baixinha e, principalmente, gente fina – que eu encontraria no dia seguinte, pela manhã, em frente à escola.

com a pancinha cheia de pão, é claro.

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7 comentários sobre ““o pão da Beth” ou “como fui recebida em Goiás”

  1. Thiago Virgilio 05/11/2012 / 13:08

    Menina, seus posts são inspiradores.
    As vezes me pego no devaneio de imaginar-me nestas situações.

    Felicidades e paz nesta jornada!

  2. Raquel Torres 05/11/2012 / 13:19

    obrigada, menino! que bom que há os devaneios…
    ah, qualquer dia desses vou ao rio e apareço na fiocruz pra dar um aperto em todos vocês :)

  3. nathalia 05/11/2012 / 13:25

    Ra, vc se mudou pra Goias????? pq saiu daquelo outro??? bjs

    • Raquel Torres 05/11/2012 / 13:29

      não, nath, é que eu não tinha escrito nada sobre pirenópolis e agora tô correndo atrás do prejuízo, haha… tô em aldeia!

  4. Celina Massi 05/11/2012 / 20:13

    Para mim é uma viagem, fico imaginando vc com seu sorriso meigo e olhar singelo escutando as historias de cada um, deve ser uma delícia! beijos

  5. Rita Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 07/11/2012 / 00:37

    Raquel cheguei a sentir o cheirinho do pão…
    Beijinhos

  6. Veronica 11/11/2012 / 20:21

    Eu hein!! O meu comentário acima era pra ter sido “agora se tornou necessário um post sobre a francesinha com uma penca de filhos”… Rá, apaga essa loucura aí de cima hahaha

comentários

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