antes de ir

nesse último mês teve de tudo um pouco: horta, macrobiótica, literatura, bichos, mais construção natural, encontro aguardado com irmã (e outros encontros inesperados também). na próxima semana tem Goiás.

mas, antes de ir embora daqui, queria registrar uma coisa já um pouco antiga. quando comecei a viver em Cholila, eu lia muito jornal. em parte, pra aprender o castelhano e, em parte, pra ficar um pouco por dentro dos temas locais. lembro uma notícia que me chocou muito na época: era sobre o número de estrangeiras que tinham sido estupradas recentemente no norte do país. a reportagem narrava dois casos que tinham ocorrido na mesma semana na província de Salta, se não me engano. em uma das histórias, o estuprador era um guia que a tal turista havia contratado para fazer uma trilha.

o mais impressionante da reportagem, porém, era a declaração do secretário de segurança sobre o caso: ele disse que não se sabia bem como as coisas tinham se passado e que talvez a culpa tivesse sido um pouco das estrangeiras, que se costumam se sentir seguras demais em outros países. a culpabilização da mulher estuprada é um discurso que nunca deveria estar presente, mas sempre está, e tem muita coisa boa sobre isso escrita em outros blogs.

nesse caso, o que me chocou foi o fato de a frase vir do tal secretário. a reportagem era encerrada com essa declaração, o que me pareceu dar um leve tom crítico à frase, mas não houve nenhuma fala que contestasse ou problematizasse a afirmação. o crime foi noticiado como um crime “comum”, e não se passou nem perto da questão de gênero.

também achei estranho o fato de só darem destaque aos casos envolvendo estrangeiras – duvido que as mulheres “locais” também não passem pelo mesmo.

um tempo depois, estava conversando com a Melisa (moça que me hospedou – muito bem, por sinal – em Catamarca) sobre lugares para visitar e coisas para fazer no norte, para onde eu estava seguindo… e uma das primeiras coisas que ela me disse foi para tomar cuidado com os caras, que seriam piores no tratamento com as mulheres que em outras partes da Argentina. a verdade é que já em Catamarca se percebia uma certa diferença: aquelas cantadas terríveis de rua eram muito mais pesadas e frequentes que em outros lugares. 

ela disse ainda que em Salta e Jujuy tem realmente sido grande o número de casos de estupro – ressalvando, é claro, o sensacionalismo da imprensa – e me aconselhou a não ficar andando sozinha por trilhas muito vazias. bom, eu, que nunca levo a sério o exagero do jornalismo em relação á violência, acabei decidindo não dar chance pro azar e andar com um pouco mais de cautela. 

no fim das contas, como eu já imaginava que ia acontecer, passeei pelo noroeste numa boa e nenhum cara me pareceu nojento ou grosseiro.

mas o que eu queria ressaltar aqui é mesmo a tal notícia que comentei no início e o lance da culpa da mulher. parece que há pouco tempo duas jovens (acho que francesas) foram violentadas e mortas numa trilha que faziam, porque, ainda segundo a Melisa, encontraram pelo caminho um grupo de homens bêbados (sim, a justificativa deles para o crime foi essa: estavam bêbados, ponto). a repercussão desse crime especifico foi muito grande, e agora está sendo votado (talvez já tenha sido – parei de acompanhar o caso) um projeto de lei que tipifica os crimes com motivação de gênero no país, e que impõe a eles penas mais duras. o povo tá usando o termo “femicídio”. espero que sirva para provocar o debate a esse respeito.

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2 comentários sobre “antes de ir

  1. Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 06/06/2012 / 20:57

    Tomara que o projeto de lei realmente tenha sucesso. Ler, ouvir ou saber esses absurdos traz à nós mulheres sentimentos de humilhação e causa perplexidades diante de aberrações como declarações de pessoa que é considerada “zeladora da ordem pública”

comentários

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