memória

“do que você mais gostou?” é a pergunta que meus pais me fazem desde sempre quando eu volto de algum passeio, seja sozinha, com amigos, com escola ou com família. e eu detesto, porque nunca sei o que responder e fico com cara de boba tentando escolher alguma coisa aleatoriamente.

pois agora, se me vierem com essa indagação em relação a Santiago, a resposta está na ponta da língua:  minha coisa preferida foi o museu da memória e dos direitos humanos. ele é muito recente – de 2010 – e tem uma mostra permanente enorme com uma quantidade espantosa de material sobre a ditadura de 1973-1990. além disso, no subsolo funciona um centro de documentação público que me pareceu organizadíssimo.

o museu poderia, é verdade, explicar melhor a situação que o Chile vivia imediatamente antes do 11 de setembro, e não o faz: o enfoque é o que aconteceu durante a ditadura, e não o que vinha ocorrendo antes nem como o golpe foi organizado. mesmo assim, a visita vale muito a pena.

a primeira sala já começa narrando o que se passou no dia do golpe, com um monte de vídeos e áudios. aparecem os bombardeios ao palácio de la moneda, as ordens para que allende renunciasse, seu último discurso, o primeiro da junta militar, e manchetes dos jornais da época, dizendo, por exemplo, que o golpe era necessário porque os marxistas haviam planejado uma grande ação para aquele dia, em que matariam dois milhões de pessoas (?!).

e o que vem depois daí é sempre muito impressionante… na verdade, não é nada que a gente não saiba que aconteceu, mas ver assim é bem diferente. fica todo mundo fungando pelas salas.

há uma porção de documentários sobre os campos de concentração que foram feitos no Chile; relatos muito detalhados (e de arrepiar até o último fio de cabelo), impressos e em vídeos, de torturas sofridas;  originais de comunicados de fuzilamento (tipo: “comunicamos que, conforme ordem TAL, foi fuzilado ontem FULANO. demos a ele um enterro cristão no cemitério TAL”); cartas escritas nas prisões e também cartas de exilados políticos a seus familiares, inclusive de crianças (aliás, as cartinhas e desenhos dos niños, tanto os exilados quanto os que permaneceram no Chile, são de dar dó); documentação de violações de direitos humanos de crianças; vídeos muito fortes de manifestações nas ruas e da repressão violentíssima (num deles aparece um cara atirando quase à queima-roupa numa menina na frente de todo mundo, e a menina fica lá, estendida e ensanguentada no chão, enquanto o homem está com a maior cara de paisagem. outro vídeo, muito marcante, mostra a visita do papa nos anos 1980: ele rezando a missa aberta muito placidamente, dizendo o quanto estava feliz por estar ali, enquanto a pancada comia lá embaixo); tem relatos de militares que eram contra o novo regime e que também foram perseguidos e torturados… fora os testemunhos de gente que teoricamente foi morta (fuzilada ou queimada, por exemplo), mas sobreviveu sabe-se lá como, conseguiu andar do lugar da desova até pedir ajuda e viveu pra contar a história! e tem ainda muito mais. passei quatro horas lá dentro e não consegui terminar de ver tudo.

e parece que no rio rolou uma comemoração pelo golpe de 1964, né? não acompanhei direito, mas soube. que loucura.

bom, em Santiago também funciona uma tal “fundación presidente Pinochet”, e eles também têm um museu. mas eu não fui.

Anúncios

Um comentário sobre “memória

  1. Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 12/04/2012 / 01:01

    Impressionante o relato. Tem gente que diz ter saudades da ditadura (?!) Pode?…

comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s