“nós os achamos feios”

em Chiloé, no Chile, chove quase todo os dias, o dia inteiro. pelo menos é o que todo mundo diz.

então, antes de sair do sol gostoso de Bariloche, preparo-me psicologicamente para chegar molhada e com frio, em meio a um dilúvio. tudo errado: ao entrar na ilha, sou surpreendida por um belo céu azul, quase sem nuvens. depois de caminhar um pouco pela agradável cidade de Castro, decido comprar frutinhas pra comer na praça, aproveitando o sol do fim da tarde. na quitanda, um senhor desconhecido me dá umas castanhas cozidas, que aceito com prazer.

quando estou sentada comendo, o mesmo homem se aproxima e pergunta se pode me fazer companhia. digo que sim e começamos a conversar. ele pergunta se ou alemã, ao que respondo que não: brasileira. ele diz que certamente devo ter ancestrais alemães, então explico mais ou menos minha genealogia, sem saber muito bem onde esse papo vai chegar. com uma ponta de orgulho, ele diz que sua esposa é alemã de segunda geração, de modo que seus filhos têm sangue alemão. hum. não entendo por que ele está me dizendo isso. então ele me pergunta como é, no Brasil, a relação entre “alemães” e negros.

imagino uma forma simples de dizer, no meu fraco castellano, o que penso sobre racismo no Brasil, mas logo que começo a falar o cara me interrompe:

– aqui em Chiloé é complicada. os brancos tratam os negros muito mal .

– mas que lástima – respondo, acreditando que ele pensa o mesmo que eu.

aí ele continua:

– sim, nós, os brancos de Chiloé, somos muito complicados.

hum. “nós”.

– como assim?

– sim, os tratamos muito mal.

hum.

– tratam mal como? não entendo. e por quê?

– ah, é que nós o achamos feios.

FEIOS. essa é a palavra que ele usa. a resposta é “nós os achamos feios”. depois de alguns segundos em silêncio, paralisada de desgosto, consigo me recompor e balbuciar algumas palavras:

– mas não entendo. tratam mal por que os acham feios?

– ah, sim, isso é complicado… são feios. e também tem outras coisas. por exemplo, essa casa aí atrás é um prostíbulo, e está cheia de negras.

– …

– é isso o que os negros vêm fazer em Chiloé, estragar a cidade. antes dos negros, não havia prostitutas (?!). como alguém pode esperar que aceitemos isso?

começo a arrumar minhas coisas pra ir embora, segura de que não vale a pena tentar continuar essa conversa. de repente, o homem começa a falar mil coisas ao mesmo tempo, sobre namorado, restaurante e não sei mais o quê. então me dou conta de que este respeitabilíssimo senhor, pai de uma nobre família e defensor da moral e dos bons constumes da ilha, está me dando mole e me convidando para um vinho.

francamente.

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3 comentários sobre ““nós os achamos feios”

  1. Paulo Cesar Gomes gurgel 03/04/2012 / 14:27

    vivendo e aprendendo… é mais uma experiencia que a viagem lhe proporcionou… e será inesquecível, certamente.

  2. Elizabeth Pimentel Torres Gurgel 05/04/2012 / 16:35

    Sabe de uma coisa? Este senhor é muito FEIO.

    Beijos

  3. Lucas Cavalcanti 14/04/2012 / 17:34

    Preconceito e racismo também estão do lado de fora do Brasil… lamentável! Mas a intenção dele explica muita coisa, já temos nossa conclusão.

comentários

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