¡no a la mina!

desde que pus os pés em Chubut, há pouco mais de um mês, venho ensaiando escrever aqui sobre o único tema que realmente parece abalar os nervos desta calma província: a mineração.

ainda não havia escrito nada pelo simples fato de que não consegui – por falta de tempo, mas principalmente por falta de gente para conversar – reunir muita informação de qualidade sobre o assunto.

mas esse não é, afinal, um blog jornalístico e muito menos científico, certo? então hoje decidi deixar pra lá o preciosismo e anotar um pouco do que entendi a partir de tudo o que li e ouvi até agora, já que o negócio é muito marcante e não deve passar em branco.

quando cheguei a Esquel e vi uma porção de inscrições nos muros sobre isso, pensei: “uau, parece que este é o tema do momento por aqui!”. e é mesmo. só que o momento já é muito, muito longo. segundo me disseram Miguel e Toli, a polêmica na Argentina como um todo começou ainda nos anos 1990 (ah, os anos 1990!) e desde então tem ocorrido uma série de lambanças na legislação ambiental no que diz respeito a isso… por exemplo, há uma lei que facilita a entrada de capital estrangeiro nas atividades de mineração do país; outra a partir da qual o Estado pesquisa e entrega (sem custo) informações geológicas básicas para as empresas privadas explorarem minério; outra que reduz as exigências de proteção ambiental a favor da iniciativa privada; sabe, coisinhas assim.

há muitas reservas de ouro e prata em toda a cordilheira chubutense e parece que há quase 400 áreas de interesse mapeadas, tanto na Argentina quanto no Chile. aí, no inicio dos anos 2000, a empresa canadense Meridian Gold estava armando com o governo da província, meio às escondidas, um plano pra explorar uma área grande perto da cidade de Esquel. não se dizia muita coisa à população, salvo que seriam gerados uns 400 empregos. em 2002, um grupo de pesquisadores da Universidade Nacional da Patagônia começou a estudar o caso e foi descobrindo os péssimos impactos ambientais que o negócio geraria, já que o plano era fazer a mina a céu aberto e com o uso de cianureto, o que contaminaria água e solo. e, ainda por cima, pertinho do parque nacional los alerces.

bom, em setembro daquele ano eles inauguraram um espaço de debate em Esquel; em outubro, numa assembleia aberta a toda a comunidade, com  200 pessoas, foi lançado oficialmente um movimento com o objetivo de parar a coisa toda. na assembleia seguinte já havia 600 pessoas! e, em novembro, eles fizeram a primeira marcha do “¡no a la mina!” na cidade, com uns 1.500 participantes. as marchas foram se repetindo todos os meses, com cada vez mais gente… em fevereiro, já eram 4 mil (Esquel deve ter uns 30 mil habitantes ao todo).

depois de ameaças aos militantes e de muita pressão por parte dos governos da cidade e da província, houve um plebiscito, no inicio de 2003, pra decidir o que fazer. Sandra me contou que o aniversário da cidade era às vésperas do plebiscito e que o prefeito fez um churrascão imenso, com ares explícitos de campanha, pra tentar comprar votos, e que 90% da população local compareceu. só que, na hora de votar… 81% disseram “no a la mina” e o projeto teve que parar. aí foi a maior festa, né?

isso não significa que o assunto esteja totalmente esquecido. muito pelo contrário! cheguei a Esquel poucos dias após o aniversário da cidade este ano e, segundo me contaram, o prefeito voltou a falar de mineração na festa: afirmou que o assunto precisa ser discutido novamente, “mais a sério”, porque Chubut precisa se modernizar e se desenvolver.

também a Cris Kirchner tocou no assunto em seu discurso de abertura do congresso, no início de março, e disse que é muito louvável cuidar da natureza, mas primeiro é preciso cuidar da espécie humana.

até hoje o povo em Esquel faz marchas todos os meses, sempre no dia 4 (infelizmente não pude ir em março, porque era um domingo e, aos domingos, simplesmente não há ônibus que passem pela minha casa) e o movimento está presente em outras cidades e povoados de Chubut e de outras províncias, como El Bolsón, Lago Puelo, Trevelin e El Hoyo.

aqui há um site com notícias sobre a situação, não só na argentina como em outras partes, e aqui está uma entrevista que a leila me mandou esses dias, sobre uma marcha de 400 km pela Patagônia.

Anúncios

Um comentário sobre “¡no a la mina!

  1. Paulo Cesar Gomes Gurgel 27/03/2012 / 23:37

    Caramba! A gente morre e não vê tudo!!!
    Pai

comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s