Coloquei para despertar às três. Mais tarde do que o normal, mais cedo do que o desejável em uma semana onde não tenho, em tese, essa jornada. Tenho coisas acumuladas, elas não acabam nunca. Mas não levantei. Dormi de novo, agora são cinco horas e não vou trabalhar. Subversiva. Em uma hora minha filha vai acordar.
Outro dia pensei um conto pequeno, vários fragmentos. Não sei se poderia se tornar algo bom, provavelmente não, mas isso não importa tanto, estava feliz. Guardei as palavras na cabeça durante uns dias, talvez uma semana, repassava ao levantar e principalmente ao deitar. Então, não sei bem o porquê, parei. Perdi. Lembrei ontem, quando voltava pra casa – lembrei o fato, não as palavras, nem o assunto. Perdi tudo.
Ontem minha filha dormiu e eu decidi sentar para contar uma outra história, uma que é quase toda verdade. Mas não fiz isso, deitei, tinha muito o que fazer hoje cedo. E ontem ainda tinha que fazer um trabalho que não consegui durante o dia, o de dar uma postagem no instagram sobre câncer.
Meu pai doente. Há sempre os sonhos, nem sempre como os de hoje. Meu pai doente, vou com ele ao médico, é uma consulta diferente, que só podia acontecer em sonho. Nunca vi o médico, meu pai diz ao médico que apareceram umas pintinhas vermelhas no pescoço e ele não sabe se tem a ver com o câncer, que fez metástase. Ontem a figura que procurei para o instagram era de metástase. O médico diz que pode ser sarampo. E pede um raio-x para comparar com o de outras pessoas que tiveram sarampo. Lamentavelmente se descobre que meu pai está com sarampo e o raio-x mostra as bolinhas de sarampo nas costelas. O médico diz que, por conta do câncer em metástase, é improvável que meu pai sobreviva ao sarampo nas costelas.
Era desses sonhos que a gente percebe, dentro do sonho, que é tudo sonho, mas acordei empapada de suor e chorando alto. Reviver esse tipo de notícia é algo assim.
Ontem levei minha mãe ao médico, fora do sonho. Parecia mal, mas está tudo bem. Vou à casa da minha mãe, ela tem um bilhete pra mim, pergunta quando eu escrevi aquelas coisas, aquelas coisas são uns papéis que estão anexados ao bilhete, e são uns papéis que escrevi na minha casa, quando decidi escrever a história que é verdade. Conto até três e dou um sorriso: você não pode ler as coisas que eu escrevo em papéis e guardo, mãe, só a internet está liberada.
Minhas amigas ficaram muito impressionadas com uma reportagem sobre episiotomia. Com a mutilação em si, bem no momento delicado do parto, mas especialmente com a sutura que às vezes, muitas vezes, acontece com um ponto a mais para que a vagina fique apertada e satisfaça aos maridos. Eu achava que todo mundo sabia do ponto do marido. Não me cortaram. Ontem falei disso e lembrei outras coisas, das quais não falei. Três dias após o parto eu era toda dor e sono. Depois que T me levou a uma consulta, com a bebê, parou na volta para dar um mergulho. Eu era toda dor e sono, pedi, por favor, não faz isso, vamos embora, eu não estou bem. Não, preciso dar um mergulho. Fiquei com a criança no colo, de pé na areia, nós duas suando em fevereiro, o medo de sentar com os pontos na areia, toda dor e sono, vendo ele nadar para um lado, para o outro, braçadas largas, e voltar revigorado. Ainda choro com isso.
Voltei à Elvira Vigna ontem, no ônibus. ‘Coisas que os homens não entendem’. Outro dia ouvi uma entrevista dela, em meio a várias outras que iam passando seguidamente enquanto eu fazia comida. Ela diz que jogou fora todos os livros da sua estante, está vendo aquela estante cheia de orquídeas? Eram meus livros. Diz que escreve em todos os livros a mesma história, o que não é uma declaração inovadora, mas é verdade. No caso ela é tão, tão verdade. É tão bom voltar a ela.