Álbum de família

“Meus pés nunca mais cruzarão o batente desta porta, enquanto você for vivo!”, disse, e saiu.

Tinha 17 anos e acabara de receber uma das maiores ofensas de toda a sua vida: o pai insinuou desconfiar de sua lisura no pequeno negócio da família. Para o menino, que já era esquentado, ser indiretamente chamado de ladrão – e pelo próprio pai! – era um disparate. Ele podia ter muitos defeitos, mas  a desonestidade certamente não era um deles. A relação entre os dois acabava ali. E a vida em Mossoró também. Continuar lendo

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Refúgio

Coloquei para despertar às três. Mais tarde do que o normal, mais cedo do que o desejável em uma semana onde não tenho, em tese, essa jornada. Tenho coisas acumuladas, elas não acabam nunca. Mas não levantei. Dormi de novo, agora são cinco horas e não vou trabalhar. Subversiva. Em uma hora minha filha vai acordar.

Outro dia pensei um conto pequeno, vários fragmentos. Não sei se poderia se tornar algo bom, provavelmente não, mas isso não importa tanto, estava feliz. Guardei as palavras na cabeça durante uns dias, talvez uma semana, repassava ao levantar e principalmente ao deitar. Então, não sei bem o porquê, parei. Perdi. Lembrei ontem, quando voltava pra casa – lembrei o fato, não as palavras, nem o assunto. Perdi tudo.

Ontem minha filha dormiu e eu decidi sentar para contar uma outra história, uma que é quase toda verdade. Mas não fiz isso, deitei, tinha muito o que fazer hoje cedo. E ontem ainda tinha que fazer um trabalho que não consegui durante o dia, o de dar uma postagem no instagram sobre câncer.

Meu pai doente. Há sempre os sonhos, nem sempre como os de hoje. Meu pai doente, vou com ele ao médico, é uma consulta diferente, que só podia acontecer em sonho. Nunca vi o médico, meu pai diz ao médico que apareceram umas pintinhas vermelhas no pescoço e ele não sabe se tem a ver com o câncer, que fez metástase. Ontem a figura que procurei para o instagram era de metástase. O médico diz que pode ser sarampo. E pede um raio-x para comparar com o de outras pessoas que tiveram sarampo. Lamentavelmente se descobre que meu pai está com sarampo e o raio-x mostra as bolinhas de sarampo nas costelas. O médico diz que, por conta do câncer em metástase, é improvável que meu pai sobreviva ao sarampo nas costelas.

Era desses sonhos que a gente percebe, dentro do sonho, que é tudo sonho, mas acordei empapada de suor e chorando alto. Reviver esse tipo de notícia é algo assim.

Ontem levei minha mãe ao médico, fora do sonho. Parecia mal, mas está tudo bem. Vou à casa da minha mãe, ela tem um bilhete pra mim, pergunta quando eu escrevi aquelas coisas, aquelas coisas são uns papéis que estão anexados ao bilhete, e são uns papéis que escrevi na minha casa, quando decidi escrever a história que é verdade. Conto até três e dou um sorriso: você não pode ler as coisas que eu escrevo em papéis e guardo, mãe, só a internet está liberada.

Minhas amigas ficaram muito impressionadas com uma reportagem sobre episiotomia. Com a mutilação em si, bem no momento delicado do parto, mas especialmente com a sutura que às vezes, muitas vezes, acontece com um ponto a mais para que a vagina fique apertada e satisfaça aos maridos. Eu achava que todo mundo sabia do ponto do marido. Não me cortaram. Ontem falei disso e lembrei outras coisas, das quais não falei. Três dias após o parto eu era toda dor e sono. Depois que T me levou a uma consulta, com a bebê, parou na volta para dar um mergulho. Eu era toda dor e sono, pedi, por favor, não faz isso, vamos embora, eu não estou bem. Não, preciso dar um mergulho. Fiquei com a criança no colo, de pé na areia, nós duas suando em fevereiro, o medo de sentar com os pontos na areia, toda dor e sono, vendo ele nadar para um lado, para o outro, braçadas largas, e voltar revigorado. Ainda choro com isso.

Voltei à Elvira Vigna ontem, no ônibus. ‘Coisas que os homens não entendem’. Outro dia ouvi uma entrevista dela, em meio a várias outras que iam passando seguidamente enquanto eu fazia comida. Ela diz que jogou fora todos os livros da sua estante, está vendo aquela estante cheia de orquídeas? Eram meus livros. Diz que escreve em todos os livros a mesma história, o que não é uma declaração inovadora, mas é verdade. No caso ela é tão, tão verdade. É tão bom voltar a ela.

Perfume

Abri a primeira gaveta da escrivaninha e fiquei tonta: era o cheiro dele. Não exatamente o cheiro dele, mas o cheiro que aquela gaveta tinha quando ele ainda estava lá. Aquilo não acontecia com o banheiro, com os armários, nem mesmo com o lado dele na cama – só com a escrivaninha.

“Cadê o pendrive?”, pensei, sabendo que já não procurava por nada. Eram duas gavetas  pequenas e duas maiores. Estavam ali a antiga escova de roupas, a calçadeira, um chaveiro da época da faculdade, um relógio de bolso, envelopes, papeizinhos de banco, um cartão postal, umas caixas que não ousei abrir e as cadernetas escolares cuidadosamente encapadas com papel, as folhas muito amarelas e gastas, os carimbos das presenças e ausências, as páginas reservadas para as anotações, os informes vindos de casa, o histórico de notas do primário e do ginásio. Continuar lendo

Como matar o seu ex

Existem muitas formas de acabar com um homem que já dividiu a vida com você. Algumas são  mais sangrentas, outras menos, algumas são muito incriminadoras e outras poderiam virar série americana. Acreditamos que a maneira mais interessante é usar um presente dado por ele.

Nem sempre será possível concluir o assassinato assim, mas o objeto em questão pode servir para iniciar o processo. O salto de um sapato enfiado no olho, um vidro de perfume despejado na garganta, um cordão apertando o pescoço. Talvez ele não seja o tipo que dá presentes caros. Não tem problema: você pode pegar aquela carta de amor que recebeu há três anos, espalhar cianeto, lacrar um pacote e mandar pelos correios.

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Nós

Um homem posa para as fotografias ao lado daquilo que aparenta ser uma mulher, mas é apenas uma versão aperfeiçoada das bonecas infláveis de sempre. Sequer é um robô com inteligência artificial, algo provavelmente tão desnecessário quanto indesejável para o que o ele pretende. É um monte de silicone moldado para ser idêntico a uma figura feminina, só que com o olhar perdido. E com cabeça e vagina desmontáveis – dois detalhes bem relevantes. Continuar lendo

Em que espelho ficou perdida a minha face?

Amanhã é meu aniversário.

Não lembro muito bem quando é que isso deixou de ser uma coisa especial. Quando eu fiz dez anos, tive uma festa deliciosa, talvez a mais deliciosa de todas – óbvio que não foi nada demais, só a minha turma inteira da escola no quintal, a mesa armada na garagem, um bolão daqueles que a gente estourava e caía um monte de doces. Acho que foi o último ano em que me senti muito, muito leve. Continuar lendo

Impróprio para crianças

A mãe e a filha vivem juntas e sós; a mãe trabalha o dia inteiro e provavelmente passa a maior parte do tempo fazendo contas e projeções sobre o futuro da filha pra ver o quanto vai conseguir oferecer com tão pouco, porque quer dar à menina as melhores chances possíveis no melhor mundo possível mas banca tudo sozinha e sabe que não vai ser simples. Todas as decisões tomadas pela mãe têm a filha como motor. Inclusive, é claro, a mudança para casa nova, bem perto da escola maravilhosa e gratuita onde a filha será admitida se conseguir passar pelo difícil processo seletivo – tem vestibulinho por lá. Continuar lendo

Quarto vazio

No quarto branco os desenhos colados são rabiscos que esperam a chegada de bonecos, árvores e casas rudimentares.

No quarto limpo os brinquedos estão – sempre estão – organizados na pequena estante, poucos, suficientes.

No quarto amplo a cama ocupa o lugar que nunca foi de um berço, porque crianças crescem rápido e não vale a pena mudar os móveis a cada par de anos. Continuar lendo

O que quer, o que pode essa língua

Tem coisa que criança esquece muito fácil. O fato de que eu, do alto dos meus quase cinco anos, não soubesse pronunciar direito o nome da minha irmã (Veonca) não me impediu de ficar no pé dela corrigindo cada letra que ela punha no lugar errado quando aprendeu a falar. Não é mota, é moto. Não é invomitar, é vomitar. Até a porcaria da música do pintinho amarelinho eu corrigia – e olha que ali era só um lance de afinação, nem tinha erro propriamente. Como se eu fosse alguma Gal Costa. Continuar lendo

Ela

Não sei se deveria ter vindo. Meus dentes estão trincados, travados, faço uma força descomunal apertando os de cima contra os de baixo e o maxilar chega a doer um pouco, mas não consigo deixar de fazer essa pressão. Tenho muito suor nas têmporas e nas mãos – bem mais do que seria normal para o verão carioca -, e o resto do meu corpo está gelado. Um calafrio levanta todos os cabelinhos dos meus antebraços.

Chego um pouco antes do combinado, mas já a vejo sentada em uma das mesas, perto da janela. Bom. Me acalma poder olhar para fora e o céu está lindo.

Um grande incômodo: me vesti segundo critérios que, para mim, definem uma pessoa razoavelmente arrumada, o que significa que coloquei a mesma calça e os mesmos tênis que uso para trabalhar, acompanhados por uma blusa que jamais usaria para trabalhar. Ela, no entanto, usa maquiagem, inclusive nos olhos. Olhos maquiados encabeçam minha lista de critérios que definem uma pessoa muito, muito arrumada.

Um segundo calafrio acorda de novo meus cabelinhos. Tenho uma leve vontade de vomitar.

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Perdida

São três horas da tarde de um domingo ensolarado, mas ainda não vi muito bem o sol, além de nos momentos em que saí para estender as roupas que bati. Três máquinas hoje, quatro ontem. É outono, dias de sol forte precisam ser bem utilizados. E, felicidade!, temos máquinas de lavar.

Fui dormir ontem à uma da manhã e acordei relativamente tarde, às sete e meia. Levantei assustada, entrei esbaforida na cozinha e só terminei o que havia planejado para ela às duas da tarde, mas me dei conta de que ainda não tinha conseguido tomar café da manhã.

Almocei.

Estou finalmente sentada e trabalho. Continuar lendo